Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", o assunto em destaque, com o comentarista Rafael Simões, é a presença dos povos sírio e libanês no Estado. Influência essa que se deu, por exemplo, por meio do desenvolvimento de cidades capixabas, como Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado, e que fica registrada na história do comércio e da culinária típica. Nesta edição também temos a participação especial do libanês Fahd Sassine El Zoghbi, que escolheu VItória para morar ainda na década de 1970. Vamos à história!
ES que História é Essa - 05-08-24
Como em qualquer emigração, a síria e libanesa não foi monocausal. Uma conjunção de fatores de ordem econômico-demográfica, política e religiosa exerceram papel fundamental para a expulsão de milhares de indivíduos da Síria e do Líbano para a América e especialmente para o Brasil entre os séculos XIX e XX.
O Líbano esteve subjugado ao Império Otomano até meados do século XX. Algumas das principais razões que impeliram os libaneses ao primeiro grande surto imigratório encontram-se na condição desse domínio e nas diversas formas de espoliação a que estiveram sujeitos: um regime fundiário de herdeiros privilegiados, o fracionamento extremo de terras, a exploração fiscal e a deficiência administrativa eram fatores que conduziam à pobreza. O cultivo em pequenos lotes, em toda a região, não bastava para sustentar as famílias, em sua maioria muito numerosas. A Coroa turca determinava seus próprios cobradores de impostos, extorquia a população e a obrigava ao serviço militar, quando convocada.
Em 1914, a representação turca contra os árabes conheceu extremos. Ocorreram centenas de enforcamentos. Ao lado dos alemães, na guerra, a Turquia convocava os dominados para o exército. Não foi por outra razão que, nesse ano, a imigração árabe tenha assumido as maiores proporções. Servir o exército do inimigo, do opressor, era condição insuportável para a maioria dos libaneses.
Durante a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX, grande número de libaneses emigrou para diversos países da América, África e Europa. Foi uma verdadeira diáspora, que abalou toda a vida social e econômica do Líbano. A maioria era composta de cristãos, os mais perseguidos do domínio turco. Paralelamente os fatores relativos à dominação turca, outras razões que ocorreram constituíram aspectos condicionantes do movimento imigratório nesse período.
A decadência das indústrias tradicionais, por exemplo, prejudicadas com a abertura do Canal de Suez, desembocou na entrada de produtos mais baratos e revelou a imigração como uma saída, uma fuga da concorrência. Libaneses imigrados, por seu lado, forneciam meios e incentivos aos parentes e amigos para que fizessem o mesmo e escapassem aos problemas que enfrentavam. A crença num "Eldorado", revelada nas cartas e relatos de amigos e parentes que acreditavam na fortuna fácil que era possível fazer na América, operava como fundamento idílico para a partida.
A força dessa visão é notável se consideramos a condição de uma região castigada por constantes vissitudes políticas, onde a guerra é um espectro sempre presente e onde o regime, de propriedade, até há pouco vigente dificultava a posse da terra à maior parcela da população.
Após a guerra de 1914, as migrações foram determinadas basicamente por razões de ordem econômica.
Como o islamismo era a religião dominante durante a vigência do Império Otomano, a superioridade numérica dos muçulmanos em relação aos cristãos era muito grande. Embora, no Líbano, a relação existente entre esses grupos fosse de tolerância, a partir do segundo quartel do século XIX, essa situação se deteriorou em virtude da interferência das potências europeias na região, cujo resultado emblemático foi a Guerra Civil de 1860. Esse conflito é tratado, inclusive, como o limiar do processo de emigração de libaneses para a América, o que explica o porquê de os cristãos representarem a grande maioria dos que emigraram para o Brasil entre 1880 e 1920.
Em relação aos fatores econômico-demográficos, é preciso fazer referência às transformações ocorridas nas redes de transporte que, ao interligarem regiões outrora distantes, facilitaram a entrada de produtos europeus mais baratos nos mercados locais, impactando decisivamente a produção artesanal da região que, além de ser em pequena escala, era destinada ao mercado local. Essa produção local não conseguiu concorrer com a produção europeia em larga escala.
Além disso, o crescimento das cidades, ocorrido ao longo do século XIX, afetou a produção agrícola, que sempre esteve voltada para a subsistência, mas que agora era forçada a atender mercados maiores, como os da Europa. Outro ponto que merece ser destacado é a questão do crescimento demográfico, porque a quantidade de terras disponíveis para as famílias diminuiu ou atingiu seu limite, forçando muitos a emigrar.
Para manter o controle da região e assim poder extrair uma carga tributária mais elevada, a administração turca, ao longo do século XIX, havia fomentado discórdias profundas entre os drusos e os cristãos, no atual território do Líbano, e entre os muçulmanos e cristãos no restante do território conhecido como Grande Síria.
A questão política tem desdobramentos religiosos. A atitude dos otomanos foi corroborada pela dos franceses durante o período em que a região estava sob seu controle. O Governo Otomano lançou mão, em 1903, do alistamento militar para cristãos libaneses os auxiliarem nas guerras dos Bálcãs, alistamento do qual eram isentos, o que forçou muitos jovens a escolherem a emigração.
De acordo com Gilda Rocha (2000), a imigração europeia para o Espírito Santo ocorreu em três fases: a primeira fase, de 1847 a 1881; a segunda fase, de 1882 a 1887; e a terceira fase, de 1888 a 1896. Na primeira fase, foram criadas quatro colônias: a de Santa Isabel, em 1847; a de Rio Novo, em 1855; a de Santa Leopoldina, em 1857; e a de Castelo, em 1880. Dessas quatro, a de Rio Novo era de iniciativa particular, mas foi encampada pelo Governo Imperial em 1861, e as outras três eram subvencionadas pelo Governo.
A segunda fase, de 1882 a 1887, foi bem mais curta e com uma entrada tímida de imigrantes em relação à primeira. Segundo Rocha (2000), isso se deu por causa das mudanças na política imigrantista imperial na virada da década de 1870.
A terceira fase se localiza, do ponto de vista temporal, entre a Abolição e o pós-Abolição. Uma vez decretada a Abolição, a situação dos grandes proprietários tornou-se dramática, levando-os a criticarem o estabelecimento de imigrantes em lotes coloniais. Assim, o Governo Provincial tratou de auxiliar a transformação do trabalho nas grandes lavouras. Os núcleos instalados são o de Cachoeiro de Itapemirim, responsável pela introdução de imigrantes nas grandes fazendas do baixo Itapemirim e Cachoeiro, e o de São Mateus, cuja função era prover trabalhadores para a grande lavoura.
Além disso, a escassez de mão de obra escrava começou a ser sentida entre os grandes proprietários capixabas a partir de 1887, especialmente os do sul, onde se localizava a grande lavoura. A partir de 1892, com a ascensão de Moniz Freire ao Governo Estadual, foi criado um serviço de imigração específico para o Espírito Santo, que foi responsável pela introdução de imigrantes estrangeiros no Estado. Além disso, o decreto que regulamentava o serviço de terras e colonização determinava um conjunto de ações para favorecer a atração desses imigrantes: do pagamento das passagens desde a Europa e hospedagem gratuita na capital ao transporte e alimentação até o ponto de localização, bem como a concessão de lote de terra, escolhido pelo imigrante.
Esse serviço de imigração só foi possível em virtude do bom momento da economia capixaba, proveniente da alta nos preços do café. Nessa terceira fase o total de imigrantes que chegaram ao Espírito Santo foi de 21.497. Isso não quer dizer que não tenha havido obstáculos à política de atração de imigrantes europeus para o Estado.
O ano de 1870 é tido pelos pesquisadores do tema como o limiar da imigração de sírios e libaneses para o Brasil, cujo fluxo migratório foi bastante irregular até meados da década de 1890. Em 1898, entraram no país 1.131 sírios e libaneses e, no ano seguinte, 2.110. A partir de 1903, o fluxo cresceu ininterruptamente até as vésperas da Primeira Grande Guerra e, em 1913, por exemplo, o quantitativo desses imigrantes chegou a 11.101. Entre 1903 e 1915, foram 43.442 entradas.
Nacionalidade Nº de Imigrantes Porcentagem do Total
Todos os Imigrantes - 4.195.832 - 100,0
Turco-árabes - 106.088 - 2,5
Italianos - 1.412.880 - 33,7
Portugueses - 1.224.274 - 29,2
Espanhóis - 582.536 - 13,9
Japoneses - 188.769 - 4,5
Alemães - 172.347 - 4,1
Russos - 108,168 - 2,6
Austríacos - 85.834 - 2,1
Poloneses - 48.609 - 1,1
Romenos - 39.204 - 0,9
Franceses - 32.923 - 0,8
Lituanos - 28.707 - 0,7
Ingleses - 24.567 - 0,5
Iugoslavos - 22.891 - 0,5
Argentinos - 20.763 - 0,5
Outros - 97.272 - 2,3
Fonte: Knowlton (1961)
Segundo apurou Knowlton (1961, p. 45), entre os denominados turco-árabes, “[...] há 78.541 classificados como turcos, 20.538 como sírios, 5.206 como libaneses, 825 armênios, 648 egípcios, 329 marroquinos, e 1 argelino. Os egípcios, marroquinos e argelinos são em geral sírios e libaneses que residiam nesses países antes de vir para o Brasil”.
A fixação dos libaneses no Espírito Santo, no início do século XX, não está definida com exatidão, especialmente no que se refere à quantidade de libaneses que se estabeleceram nesse período. Provavelmente, em todos os livros cartoriais do Estado, será possível encontrar registros relativos à presença de libanês. A própria confusão entre turco, sírio e libanês, manifesta inclusive nos documentos da época dificulta sua identificação.
Sírios e libaneses chegaram ao Espírito Santo por volta das duas últimas décadas do século XIX. Identifica-se a presença destes indivíduos em Alegre, por volta de 1880 e entre 1892 e 1895, em Itapemirim e Cachoeiro de Itapemirim. A partir daí, assentaram-se em praticamente todos os municípios capixabas, de norte a sul. Essa imigração oriental caracterizou-se, entre outras coisas, pela ausência de subvenção do Estado, bem como por seu caráter estritamente urbano. Contudo, o Recenseamento das Propriedades Rurais do Brasil, de 1920, mostrou que, alguns deles adquiriram propriedades agrícolas e se dedicaram à agricultura.
Trata-se de uma imigração não subvencionada pelos governos federal e estadual, fundamentalmente urbana, com alta dispersão demográfica, cujo marco inicial em relação ao Brasil é o ano de 1870. No caso do Espírito Santo, já havia imigrantes libaneses em Alegre, no sul capixaba, em 1880. Praticamente, todos os municípios capixabas receberam levas de sírios e libaneses, onde revolucionaram as atividades comerciais. No entanto, parecem invisíveis no cômputo dos imigrantes que se assentaram no território capixaba.
Os recém-chegados ao Brasil contavam com a ajuda de um patrício, isto é, de um parente, amigo ou conterrâneo, aqui chegado anos antes, que já havia se estabelecido. Ele ajudava com algumas mercadorias em consignação, hospedagem e as primeiras palavras em português, elemento fundamental para o ofício da mascateação. Depois de alguns anos de trabalho, enquanto muitos retornavam ao Líbano, onde se destacariam em suas localidades de origem pela riqueza amealhada no Brasil, outros preferiam aqui se estabelecer – normalmente através de um armazém de secos e molhados em cidades do interior que ainda não dispunham desse benefício (nas cidades, além dos secos e molhados, outros negócios comerciais mantidos por sírios e libaneses eram lojas de tecidos, restaurantes, bares e similares). A abertura de lojas contribuiu para a consolidação desses imigrantes no comércio.
É interessante notar que no interior o sucesso das atividades comerciais dos sírios e libaneses se desdobrou em investimentos nos setores imobiliário e agropecuário. No Espírito Santo, as primeiras famílias sírio-libanesas se estabeleceram principalmente na Região Sul: Alegre, Cachoeiro de Itapemirim, Muqui, Iconha e Anchieta. Depois foram para Vitória e para a região Norte: São Mateus, Nova Venécia e Colatina.
Bem característico desses imigrantes foi o estabelecimento no comércio capixaba, por questões econômicas e de liberdade. De início, eles eram mascates, tropeiros. Assim, não precisavam de um capital inicial e viajavam. Depois, foram virando donos de lojas, açougues e padarias. Ou proprietários de pequenas indústrias.
A Avenida Jerônimo Monteiro e a Vila Rubim - pontos comerciais tradicionalíssimos da Capital - são só dois dos exemplos onde muitos sírios e libaneses vendiam as próprias mercadorias.
Por causa da prosperidade adquirida com o passar do tempo, alguns sírios e libaneses passaram a ser alvo de rejeições por parte dos capixabas. O evento máximo que reflete esse atrito entre locais e imigrantes é uma revolta que aconteceu em Cachoeiro de Itapemirim, em setembro de 1898.
Alguns sobrenomes de famílias sírio-libanesas: Abdala, Alcuri, Ascha, Assad, Bichara, Buaiz, Carone, Chequer, Haddad, Kalil, Mameri, Mansur, Minassa, Nader, Nascif, Saad, Shebab, Tanuri.
Pratos culinária árabe - quibe, esfirra, tabule, homus, babaganoush.
[fonte: pesquisa A Gazeta]