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João Baptista Herkenhoff

O inesquecível dia em que apertei a mão de um santo vivo

Fui atendido. Depois desse dia acreditei com muita mais força e vigor no Cristo de Dom Hélder Câmara

Publicado em 09 de Julho de 2019 às 19:28

Públicado em 

09 jul 2019 às 19:28
João Baptista Herkenhoff

Colunista

João Baptista Herkenhoff João Baptista Herkenhoff
Dom Hélder Câmara Crédito: Amarildo

Dom Hélder Câmara vai ser canonizado. Fico boquiaberto ao lembrar que apertei a mão de um santo, quando ele ainda vivia neste mundo. E mais que isto: falei com o santo.

Quando já marquei, no calendário, oitenta e três anos de vida, essas lembranças trazem-me conforto espiritual.

Meu último encontro com Hélder Câmara aconteceu no Recife, em 1997, dois anos antes da partida do santo em direção à morada definitiva, certamente mais confortável que a modesta morada que ele habitava, na periferia da capital de Pernambuco, onde era vizinho dos pobres e abandonados.

Quando tomou posse como arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Hélder habitou o imponente Palácio Episcopal. Mas não se sentiu bem nesse nobre endereço. Vendeu o imóvel e aplicou o dinheiro na construção de casas para os pobres. Decidiu morar na periferia que, ali sim, estaria junto daqueles que mais ele amava.

A primeira coisa que observei, ao chegar (os juízes aprendem a observar detalhes), foi a total falta de proteção na casa. Embora isto não fosse da minha conta, supus que era de meu dever admoestá-lo: “Dom Hélder, o senhor anda falando coisas que não são do agrado dos poderosos. Será fácil praticar aqui um assassinato, sem deixar pistas.”

Ele respondeu com um gesto e uma frase. Curvou a cabeça e disse: “Está vendo estes fios de cabelo que ainda restam? Não cai um único fio sem que Deus permita.”

Eu respondi: “o senhor é um homem de fé, Dom Hélder. Minha fé tem o tamanho de um grão de mostarda. Peço a Deus que este encontro com sua pessoa, que esta vinda a sua casa, aumente minha fé.”

Fui atendido. Depois desse dia acreditei com muita mais força e vigor no Cristo de Dom Hélder Câmara.

Por que usei a expressão Cristo de Dom Hélder Câmara? Que Cristo é esse? É o Cristo na visão do profeta Hélder. Não é o Cristo que fica dentro das igrejas. Não é apenas o Deus que se fez homem. É o Cristo que está nas periferias, nas prisões, nas filas quilométricas dos hospitais, nas filas do Bolsa-Família, nos corredores dos fóruns pedindo Justiça.

Foi a esse Cristo Vivo, não ao Cristo histórico, foi a esse Cristo que Hélder Câmara dedicou sua vida.

João Baptista Herkenhoff

João Baptista Herkenhoff João Baptista Herkenhoff

É juiz de Direito aposentado e escritor. Aborda temas atuais com uma visão humanista, com foco nos direitos humanos. Escreve às quartas

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