Hoje é Quarta-Feira de Cinzas, dia que dá início à Quaresma. As cinzas são celebradas em seguida ao carnaval. É tradição cristã a imposição das cinzas na fronte dos fiéis para nos lembrar que somos pó.
Quando vemos na televisão, ou lemos na internet, a troca de impropérios entre pessoas, não podemos deixar de pensar: é tudo passageiro, não se justificam as agressões, somos pó, nosso destino é o pó.
Estamos vivendo no mundo um tempo de Ecumenismo. Em Roma, Francisco convida todos os cristãos para o abraço da paz. O Cristo pediu a unidade, o Cristo é a unidade.
A unidade é uma atitude, não é um rito. Mesmo sem pronunciar o nome do crucificado, buscam a unidade fraterna todas aquelas pessoas que abominam as exclusões e as discriminações. A Quaresma pede que lutemos para rasgar todos os rótulos humilhantes que possam ser colocados no rosto das pessoas. Não somos apenas iguais perante a lei, como está escrito na Constituição. Somos iguais no mais profundo do nosso ser, somos iguais na essência existencial.
Jesus Cristo está em toda parte. Mas está, sobretudo, onde estão os operários, os pobres, os sofredores. Nós encontraremos seu santo rosto nas favelas, nos hospitais, nos asilos, nas prisões. Ali onde estão os pequeninos, ali está o Cristo, como anúncio de esperança, consolo dos aflitos, auxílio dos que padecem chagas físicas ou chagas morais.
A meu ver, não há oposição entre carnaval e Quaresma.
Na presença entusiasmada da gente mais simples do povo em escolas de samba e blocos de carnaval, identificamos a busca de identidade, tão forte na alma humana. Quem pertence a uma escola de samba ou a um bloco carnavalesco tem endereço, raiz, deixa de ser alguém sem lenço e sem documento.
As escolas de samba permitem que os mais pobres, dentre os pobres, pelo menos por um dia sejam aplaudidos nas avenidas e reconhecidos como gente com alma e coração.
Aquele gari que nunca ouviu um “muito obrigado” pelo seu importante trabalho de limpeza das vias públicas é aplaudido com entusiasmo quando desfila fantasiado de príncipe, marinheiro ou aviador.
O desfile de uma escola de samba é o teatro do povo, e o teatro, por uma longa tradição, construiu consciências. Não é por acaso que temas de escolas de samba foram vetados nas ditaduras brasileiras. Hoje, vivemos um clima democrático. As escolas de samba podem satirizar a presidente da República, governantes em geral, legisladores, magistrados. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo povo, que tesouro sem preço é a liberdade.
Vibro com as escolas sim, mas vibro ainda mais com o rosto feliz dos sambistas. Esses rostos me enternecem.
Se houvesse menos preocupação em punir e lotar as prisões e mais preocupação com ações educativas e de valorização humana, a criminalidade teria uma imensa redução.
*O autor é juiz de Direito aposentado e escritor