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Brasil

O medo pode atrapalhar o desempenho nos vestibulares e no Enem? Veja como lidar com essa emoção

A intensificação dele pode causar bloqueios, dificuldade de concentração e até “branco” durante a prova

Publicado em 07 de Outubro de 2026 às 16:15

Portal Edicase

Publicado em 

07 out 2026 às 16:15
A pressão e o medo de fracassar podem afetar a concentração e o desempenho dos estudantes (Imagem: YURII MASLAK | Shutterstock)
A pressão e o medo de fracassar podem afetar a concentração e o desempenho dos estudantes Crédito: Imagem: YURII MASLAK | Shutterstock

Conseguir um bom resultado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e nos vestibulares e disputar uma vaga na universidade é uma situação desafiadora para muitos jovens. Durante a preparação, é comum os estudantes sentirem uma certa pressão – de si mesmos e das pessoas próximas – e até medo de não corresponderem às expectativas. Em doses saudáveis, um certo nível de apreensão até é benéfico – esse é o papel evolutivo do medo, de nos mobilizar para agir diante de um desafio. O problema é quando ele passa de aliado a obstáculo.

“Quando o estudante entra na prova dominado pelo medo de errar, sua atenção se divide: parte da energia mental vai para resolver as questões e outra parte fica ocupada tentando lidar com o próprio nervosismo. É como tentar correr uma prova carregando um peso extra nas costas: o esforço é maior, e o resultado tende a ser pior”, explica a psicóloga Rafaela Perim, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e gerente pedagógica da Escola da Inteligência, solução de educação socioemocional da Arco Educação.

Além disso, segundo ela, o medo excessivo pode causar bloqueios, dificuldade de concentração e até “branco” na hora da prova. Isso ocorre justamente porque a mente, tomada por esse sentimento, prioriza a proteção emocional em vez do raciocínio. “É exatamente o mecanismo que, em outros contextos, nos protegeria de um perigo real, mas que, diante de uma prova, só atrapalha”, afirma.

Medo de “não dar certo na vida”

Para muitos jovens, o vestibular carrega um peso que vai muito além de uma prova. Ele é vivido como um divisor de águas, quase como se aquele único resultado definisse o futuro inteiro, a carreira, o valor pessoal e até o reconhecimento da família. “Esse tipo de pensamento, embora compreensível, é uma distorção, mas é uma distorção muito real na experiência emocional do estudante”, ressalta a psicóloga.

É importante entender também por que o medo se apresenta com tanta força nesse momento específico da vida. “O medo é uma emoção primitiva, que existe para nos proteger diante de ameaças. O problema é que, para o cérebro, a distinção entre uma ameaça real, como um perigo físico, e uma ameaça simbólica, como o medo de ‘não dar certo na vida’, nem sempre é tão clara”, aponta Rafaela Perim. 

Dessa forma, diante da percepção de que o vestibular decide seu futuro, o jovem ativa o mesmo sistema de alerta que ativaria diante de um perigo concreto, mesmo que, racionalmente, ele saiba que não é bem assim.

“Além disso, há o fato de que a adolescência é, por natureza, uma fase de intensa reorganização emocional, em que a busca por pertencimento e reconhecimento está em alta. Isso contribui para que o medo do fracasso ganhe uma proporção ainda maior do que teria em outra fase da vida”, completa.

Principais fatores de pressão

Nesse contexto, a autocobrança, a comparação com os colegas e a expectativa dos pais costumam se somar e se retroalimentar, formando um cenário fértil para o medo se instalar. De acordo com a gerente pedagógica da Escola da Inteligência, a autocobrança excessiva faz o estudante acreditar que qualquer resultado abaixo da perfeição é um fracasso.

Já a comparação com colegas o coloca em uma corrida constante, na qual ele nunca se sente “à frente” o suficiente. “Vale lembrar que a comparação social também tem uma raiz evolutiva: desde sempre, o ser humano se orienta pelo grupo para avaliar sua própria posição e garantir seu lugar de pertencimento . Na adolescência, essa necessidade de comparação e validação social está em seu ponto mais intenso, o que explica por que ela pesa tanto nesse momento específico”, acrescenta.

E a pressão dos pais, mesmo quando vem de um lugar de cuidado e expectativa positiva, pode ser sentida pelo jovem como mais uma cobrança à qual ele precisa corresponder, sob risco de decepcionar quem ama.

Entender as próprias características pode ajudar o estudante a encontrar formas mais adequadas de lidar com a pressão (Imagem: PeopleImages | Shutterstock)
Entender as próprias características pode ajudar o estudante a encontrar formas mais adequadas de lidar com a pressão Crédito: Imagem: PeopleImages | Shutterstock

Cada estudante reage de uma forma à pressão

A forma como cada estudante reage a esses três fatores também tem relação com traços de personalidade. Rafaela Perim explica que, conforme o modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade, o Big Five , usado pela psicologia para compreender diferenças individuais, estudantes com traços mais elevados de neuroticismo (maior tendência a vivenciar emoções negativas como ansiedade e insegurança) tendem a ser mais impactados pela autocobrança e pela comparação social.

Já estudantes com traços mais elevados de conscienciosidade (marcados por disciplina e orientação a metas) podem lidar melhor com a organização dos estudos, mas, paradoxalmente, também correm o risco de se cobrar demais, justamente por levarem o compromisso com o resultado muito a sério.

“Entender essas diferenças individuais é importante porque reforça que não existe um jeito único e correto de lidar com a pressão do vestibular: cada jovem vai precisar de estratégias diferentes”, defende Rafaela Perim.

Para neutralizar esses fatores, segundo ela, é importante o estudante construir uma relação mais saudável com o erro, entendendo que ele faz parte do processo de aprendizagem e não é uma sentença sobre sua capacidade. Vale também trabalhar a ideia de que cada pessoa tem seu próprio ritmo e sua própria trajetória, o que reduz o impacto da comparação. Em relação à família, é fundamental que ela seja orientada a comunicar apoio, não apenas expectativa, deixando claro para o jovem que o vínculo e o amor não estão condicionados ao resultado da prova .

Como lidar com a insegurança

Para contornar o medo, Rafaela Perim cita algumas estratégias que podem ajudar os estudantes:

  • Organização e planejamento dos estudos: ter um cronograma realista e claro reduz a sensação de descontrole, que é uma das maiores fontes de ansiedade nesse período. Saber o que estudar, quando e como, devolve ao estudante uma sensação de domínio sobre o próprio processo;
  • Realização de simulados: simular a experiência da prova, com condições semelhantes às do dia do exame, ajuda o estudante a se familiarizar com o formato e com a própria ansiedade, tornando o momento da prova menos desconhecido e, portanto, menos assustador;
  • Desenvolvimento da autoconfiança: ela se constrói reconhecendo avanços reais, por menores que sejam, ao longo da preparação. A autoconfiança e a autoeficácia não nascem de um dia para o outro; elas se constroem na percepção acumulada de que “eu já superei desafios parecidos antes”;
  • Manejo da ansiedade e do estresse: técnicas de respiração, pausas conscientes durante o estudo e o desenvolvimento do autoconhecimento ajudam o estudante a reconhecer os sinais de ansiedade antes que aumentem e a lidar com eles de forma mais equilibrada;
  • Autocuidado: sono adequado, alimentação equilibrada e momentos de lazer não são luxo nesse período, mas parte da estratégia de estudo. Um corpo e uma mente exauridos não sustentam bom desempenho, por mais conteúdo que tenha sido revisado.

Para a especialista, entender a origem do medo e sua função evolutiva de proteção é o primeiro passo para que o jovem deixe de se julgar por sentir medo e aprenda a lidar com ele. “Esse é, no fundo, um dos maiores objetivos da educação socioemocional: não eliminar as emoções desagradáveis, mas ensinar a atravessá-las com mais consciência e equilíbrio”, finaliza Rafaela Perim.

Por Lisandra Matias

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