Filho dos imigrantes italianos Zama e Mariana Malagutti Carloni, André Carloni nasceu em Bolonha a 28 de janeiro de 1883 e chegou ao Espírito Santo em 1890. Aos 10 anos, perdeu seu pai e tornou-se arrimo de família, passando a trabalhar como garçom, capinador de ruas, lavador de pratos, etc.
Ao ser contratado em 1895 como ajudante de pintor durante a construção do Theatro Melpômene, descobriu seu talento como artista e começou a desenhar cartazes relativos a peças teatrais. Estudou artes plásticas e também aprendeu a projetar prédios, estradas e outras obras, além de se tornar um grande empreendedor.
Naquele início do século XX, após Muniz Freire ter iniciado o processo de modernização do Espírito Santo, Jerônimo Monteiro prosseguiu rompendo com o perfil colonial que Vitória ainda conservava, promovendo aterros, abertura de estradas, melhorias na área da saúde pública, serviço de saneamento básico, iluminação pública e estrutura para transportar a produção do café. Nesse sentido, foram desenvolvidos projetos ambiciosos, como a construção das ferrovias Sul do Espírito Santo e Vitória-Minas, do porto da Capital capixaba, além de estradas e pontes ligando a Ilha de Vitória ao continente.
Com essas providências, a cidade ganhou um novo traçado de ruas e avenidas. Além disso, foram demolidas antigas edificações que deram lugar a novos prédios, praças e escadarias. Nesse cenário, o construtor André Carloni se destacou, sendo o responsável por diversos projetos na área da construção civil.
Foi ele quem construiu a Santa Casa de Misericórdia, o Parque Moscoso, a antiga sede da Assembleia Legislativa (hoje Palácio da Música), o Clube Saldanha da Gama, a Fafi e outras obras importantes. Iniciou a construção da Catedral Metropolitana de Vitória, reformou o Palácio Anchieta.
Após um incêndio, o prédio do Theatro Melpômene foi interditado. Carloni aproveitou a interdição e a determinação do governo de que o prédio teria que ser demolido para dar espaço ao novo projeto de ampliação da Praça (Costa Pereira) e abertura da Rua Sete de Setembro. Também viu como oportunidade a promessa do governo de criar uma nova casa de espetáculos para atender as reivindicações da população. Diante desse cenário, comprou o antigo prédio do Melpômone e o demoliu. Projetou e construiu, mediante alguns favores do governo, por sua conta, o Theatro Carlos Gomes. As colunas de ferro fundido, que sustêm os camarotes, pertenceram ao antigo teatro”, conta Serafim Derenzi na Biografia de uma ilha.
A Prefeitura de Vitória doou o terreno com isenção de impostos por 25 anos, enquanto o governo estadual contribuiu com um modesto apoio financeiro. O resto foi bancado por Carloni.
Como artista plástico, registrou em desenhos e aquarelas muitas paisagens de Vitória, inclusive algumas desaparecidas com o tempo, mas conservadas em suas telas e traços.
Contribuiu para a preservação de nosso patrimônio histórico e artístico, dedicando muitos anos de sua vida à conservação, reforma, restauração e tombamento de diversos monumentos capixabas. Tendo se tornado perito em Belas Artes, foi o primeiro representante do antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (hoje IPHAN) no Espírito Santo. Nessa função, teve atuação decisiva para o tombamento de inúmeros monumentos e prédios de interesse histórico e cultural, como o Solar Monjardim, igreja e convento de Anchieta, Capela de Santa Luzia, igrejas do Rosário, dos Reis Magos (Nova Almeida) e igreja matriz da cidade de São Mateus, para citar apenas algumas.
Espírito jovial e empreendedor, entrou para a história também por seu pioneirismo: trouxe para Vitória o primeiro automóvel que circulou no Espírito Santo, tendo ele mesmo que orientar a pavimentação das ruas por onde o carro pudesse transitar.
Esta é uma parte da história contada no 35º da Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo, cujo texto inicial foi escrito por Bartolomeu Boeno de Freitas.
* Antônio Gurgel é jornalista e escritor. Texto originalmente publicado no Pensar, em 26 de agosto de 2017.