* Matéria publicada originalmente em A Gazeta, em 2014
É justo dizer que a MPB, durante os anos 1960 e 1970, esteve em trincheiras alegóricas. O motivo maior era a resistência contra a ditadura brasileira, endurecida após o decreto do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que suspendia direitos fundamentais do cidadão – entre eles a manifestação de cunho político.
A voz contestatória dos artistas canalizada em forma de canções é foco desta matéria que integrou a série de reportagens de A GAZETA sobre os 50 anos do Golpe Militar, publicadas em 2014, que estão sendo republicadas devido aos 50 anos do AI-5. Os nomes dos nossos heróis são muitos – e conhecidos: Tom Zé, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e mais uma ala inteira que colocava em xeque o regime militar, geralmente com o subterfúgio de metáforas e ironias.
"Como a censura cerceava os compositores, eles precisavam elaborar a mensagem da canção de tal forma que os censores não percebessem a intenção política da mensagem", explicou, em 2014, Maria Aparecida Rocha Gouvêa, autora do livro “Música de Protesto e Ethos Discursivo no Período da Ditadura Militar: A Arte de Dizer o Proibido”.
Na época da publicação da matéria, em 2014, Gouvêa citou a simbólica canção “Viola Enluarada” (1967), de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. Ali, às portas do tropicalismo, os compositores tentavam driblar a ditadura e “proteger a face” com versos: “A mão que toca um violão / se for preciso faz a guerra.”
Chico Buarque, segundo Gouvêa, destacou-se pela ironia, sobretudo após a volta do exílio – quando até adotou o pseudônimo Julinho da Adelaide, em algumas composições, para esquivar-se da censura. “Uma estratégia comum dele era a utilização dos pronomes sem referência. Por exemplo, quem é o 'você' em 'Hoje você é quem manda', na música 'Apesar de Você'? Ele estava fazendo uma dura crítica ao regime militar, mais precisamente ao presidente Médici."
Ao incorporar temas sociais, a MPB impeliu certa ruptura com gêneros pregressos, em especial a bossa nova e a jovem guarda. "Na bossa nova, tínhamos um cantor mais passivo, com arranjos muito bem elaborados", disse Gouvêa, ao passo que a música de protesto "apresentava arranjos mais simples, até para valorizar mais a letra da canção".
TROPICALISMO
Houve outra guinada, desta vez mais profunda. Em 1967 e 1968, um conjunto de artistas resolveu romper com o que ainda havia de tradicional na arte brasileira, sob a égide da vanguarda da cultura pop. Na música, seu grande manifesto foi o disco "Tropicalia ou Panis et Circencis", reunião de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Nara Leão, Tom Zé e Gal Costa.
O clamor era por mais liberdade, em um tempo em que essa era uma palavra proibida. "O tropicalismo percebeu que a linguagem da música estava sendo utilizada pelo próprio sistema para promover bens de consumo", afirmou Celso Favaretto - autor de "Tropicália: Alegoria, Alegria" -, ao Caderno 2, em 2014.
Quando adquire um status de obra de arte, a tropicália influencia uma série de artistas também tocados por ideias libertárias, a exemplo dos Secos & Molhados, que vieram logo depois, ainda sob a sombra do governo Médici. "Apresentou-se uma ideia de espetáculo que não se conhecia na música. Os músicos passaram a tocar de maneira menos contida, tanto nas roupas quanto na efetivação da voz", disse Favaretto, em 2014.
O caminho para tomar o imaginário dos brasileiros teve parada obrigatória na televisão. Em 1965, começava a era dos festivais, com destaque para o Festival da Música Popular Brasileira, que consolidou a turma de compositores militantes. O evento foi transmitido pela TV Record até 1969.
O público, no entanto, enfrentou certa dificuldade para absorver aquela revolução. "Inicialmente, o efeito foi de perplexidade. Não se entendia música como arte, mas só como entretenimento", explica Favaretto. “Mas houve uma parte do público que percebeu que aquilo não era só novidade, que desafiava a política. Exigia mudança de comportamento.”
REPRESSÃO MILITAR
Nos bastidores do 3º Festival de Música Popular Brasileira, em 1967, Gilberto Gil recebia um José Carlos Capinan perturbado. O poeta, parceiro de Gil e outros músicos de dentro e fora da tropicália, trazia nas mãos uma letra de música, escrita sob o peso da recente morte de Che Guevara, símbolo maior da resistência latino-americana contra a ditadura.
Capinan não sabia que "Soy Loco Por Ti, América", o manuscrito que entregava a Gil no Teatro Paramount, seria emblema poderoso do tropicalismo. Por outro lado, a carga que permitiu a criação da música – a execução do guerrilheiro argentino – se realizaria na forma de uma opressão inelutável, um ano depois: o AI-5. Acontecia, nos bastidores daquele teatro paulista, o encontro premonitório de Gil e Capinan com o começo do fim de um ciclo revolucionário.
"A morte do Che representava o fim de uma época", disse Capinan, ao Caderno 2, em 2014. "Aquilo desencadeou um retrocesso na América Latina e no Brasil. Houve um entusiasmo da repressão porque era a derrubada de um mito."
Logo após o golpe, Capinan deixou a Bahia para se misturar em São Paulo e no Rio de Janeiro, a fim de fugir da teia que reprimia os artistas. Mesmo assim, no Leblon, sofreu as agruras do regime. "Levei uma surra de um grupo de rapazes vinculados ao Exército, na praia. Em Santa Teresa, colocavam suásticas pregadas em frente a minha casa", lembra.
Na mira da ditadura também estava Jards Macalé, outro parceiro de Capinan na música – "Gotham City", canção assinada pelos dois, foi exaustivamente vaiada no Festival Internacional da Canção de 1969 por conteúdo e interpretação modernas.
Depois de gravar com Caetano em Londres, em 1971, Macalé voltou ao Brasil. Dois anos depois, no ápice da repressão do governo Médici, criou um espetáculo para comemorar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. No palco do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, subiram Chico Buarque, Gal Costa, Jorge Mautner e outros músicos, muitos deles recém-chegados ao país depois do exílio. Era "O Banquete dos Mendigos".
"Naquele momento era proibido falar em Direitos Humanos. Mas resolvemos ler artigos da Declaração Universal da ONU entre as músicas", lembrou Macalé. "Na saída, estávamos cercados pelo Exército.", completou ao C2.
Mas o músico só seria preso em 1978, na capital capixaba, depois de um show ao lado de Moreira da Silva. Às seis da manhã, três policiais federais invadiram o quarto de hotel que Macalé estava hospedado e o prenderam. "Fiquei nove horas incomunicável em uma cela da Polícia Federal", disse. Ele só foi libertado da cadeia depois da intervenção do então ministro Ney Braga.
Jorge Mautner, que no começo dos anos 1970 militou na Europa em função do exílio, diz que voltou ao Brasil depois de uma conversa com a ativista e socióloga Violeta Arraes, na Catalunha, Espanha. Violeta, na ocasião, acolhia militantes e guerrilheiros para uma célula cultural em comum, naquela região.
"Estávamos eu, Gil e Caetano, quando ela me chamou para conversar. Ela disse: ‘O povo brasileiro caiu em profunda depressão e não acredita mais na redemocratização. Vocês têm que voltar para o Brasil para acabar com esse pessimismo", lembrou Mautner, em conversa com o C2, em 2014.
Antes do exílio, Mautner chegou a ser "elegantemente conduzido" para uma cidade no interior de São Paulo. Lá, ficou acompanhado de vários militares por três meses. O motivo nasceu de suas colunas subversivas no jornal "Última Hora". "Quando voltei, continuei escrevendo contra a ditadura. Então disseram que eu tinha que sair do país."
FESTIVAL DA CONTRACULTURA EM GUARAPARI
Os festivais de Woodstock, em 1969, e Glastonbury, em 1970, já tinha solidificado a música da contracultura como uma imersão coletiva. Mas faltava um reduto “paz e amor” no Espírito Santo.
Jornalista e militante da esquerda, Rubinho Gomes juntou-se ao produtor cultural Antônio Alaerte e a Gilberto Tristão para organizar uma versão tropicalista do Woodstock. Nasceu, então, em fevereiro de 1971, o "Guaraparistock", festival de quatro dias – de 11 a 14 – que tomou as Três Praias.
Na escalação, estavam os Novos Baianos, Taiguara, Ivan Lins, Milton Nascimento, Toni Tornado – lembrado pelo salto mítico do palco, seguido de voo rasante sobre a plateia –, Luiz Gonzaga e outros artistas. Aberto pelo apresentador Chacrinha, o evento recebeu cerca de 50 mil pessoas, segundo Rubinho. "Foi um momento marcante porque os jovens não podiam se reunir pra nada", lembra o jornalista.
O clima era tão louco que até feridas do passado foram reabertas. A banda capixaba Os Mamíferos, expoente do rock psicodélico nos anos 1960, havia acabado de "ser separada", nas palavras de Afonso Abreu, baixista do grupo. Para o festival, apenas Aprígio Lyrio, vocalista do trio, tocaria, acompanhado de outros músicos.
Afonso e o baterista Marco Antônio Grijó, então, decidiram formar o Trio Experiência com o guitarrista Zé da Bahia – espécie de Jimi Hendrix nordestino, segundo descrição de Afonso. O motivo? Ensaiar durante seis meses para tocar clandestinamente. "Entramos em um intervalo, ligamos os instrumentos e tocamos... uma música! (risos) Depois tiraram a gente do palco", lembra Afonso. "Sei que um monte de gente assistiu. Lembro que os Novos Baianos estavam lá na frente."