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Pobreza menstrual: saiba como o problema afeta a saúde das mulheres

A dificuldade de acesso às condições básicas de higiene afeta mulheres no Brasil e no mundo. Presidente Jair Bolsonaro vetou a distribuição gratuita de absorvente feminino para estudantes de baixa renda de escolas públicas

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 07/10/2021 às 19h13
Menina segurando um absorvente
No Brasil, cerca de 713 mil meninas vivem em casas sem banheiros e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas. Crédito: Freepik
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Logomarca Todaselas. Crédito: A Gazeta

Você já ouviu falar em pobreza menstrual? O termo se refere a um fenômeno mundial que está relacionado à falta de recursos de meninas e mulheres para manter uma boa higiene no período da menstruação, seja por falta de dinheiro, infraestrutura ou saneamento básico. 

No Brasil, cerca de 713 mil meninas vivem em casas sem banheiros e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas, segundo o relatório "Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos", lançado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Isso sem falar na crescente população de rua e de vulneráveis do País.

O assunto voltou a ser discutido nessa quinta-feira (07), após o presidente Jair Bolsonaro vetar a distribuição gratuita de absorventes para escolas públicas e mulheres em situação de rua ou de vulnerabilidade extrema. Na decisão, publicada no Diário Oficial, Bolsonaro argumenta que o texto do projeto não estabeleceu fonte de custeio.

Bolsonaro sancionou o projeto que cria o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, mas vetou os principais pontos do texto. Também seriam beneficiadas mulheres presidiárias ou internadas em unidades para cumprimento de medida socioeducativa. O presidente também vetou o trecho que incluía absorventes nas cestas básicas distribuídas pelo Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. 

ATENDIMENTO DIGNO

Dados da Organização Mundial da Saúde (ONU) revelam que, em todo o mundo, uma em cada 10 meninas deixam de ir ao colégio durante o período menstrual, por questões relacionadas à falta de acesso ao básico, por medo, vergonha ou pela combinação desses fatores.

“A menstruação é algo natural, fisiológico, uma parte da vida da mulher, mas infelizmente ainda vive cercada de tabus. Soma-se a isso o fato de que muitas adolescentes e mulheres no mundo não têm acesso nem à água tratada, que dirá a absorventes ou coletores menstruais. E isso pode trazer consequências para a saúde da mulher, do ponto de vista emocional e físico”, explica o ginecologista e obstetra Remegildo Gava. 

Para ele, o acesso a produtos sanitários e a espaços seguros e higiênicos é um ponto importante para lidar com a menstruação sem vergonha ou estigma. E é fundamental que a mulher em todas as suas demandas e faixas etárias tenha uma atendimento digno. “Da menarca – que é a primeira menstruação – passando para uma possível decisão de querer engravidar ou de evitar uma gravidez até o período da menopausa, essa assistência é importante e garante uma vida mais saudável e equilibrada”, diz.

MATERIAIS IMPRÓPRIOS

A ginecologista e obstetra Anna Carolina Bimbato conta que adolescentes e mulheres que não têm acesso à água tratada, a absorventes ou coletores menstruais, acabam usando o que possuem por perto no período menstrual. "Pode ser trapos de pano, papel e até reutilizar absorventes descartáveis. Com isso as infecções urinárias e genitais se tornam frequentes. Pela falta de absorventes, muitas meninas deixam de frequentar a escola o que pode ser devastador para o desenvolvimento".

médica obstetra Anna Carolina Bimbato
A ginecologista Anna Carolina Bimbato fala da importância das mulheres terem acesos a absorventes ou coletores menstruais. Crédito: Arquivo pessoal

"Segundo pesquisas, mulheres com infecções urogenitais tinham duas vezes mais chances de usar panos reutilizáveis ​​em vez de absorventes higiênicos descartáveis. Algumas também inserem jornal em suas vaginas para reduzir a chance de vazamento menstrual, apesar da preocupação de que isso possa não ser seguro e que a tinta do jornal possa causar câncer", completa o ginecologista Fábio Kuteken, da Rede de Hospitais São Camilo, de São Paulo.

ALTO CUSTO

Mariana Betioli, obstetriz e fundadora da marca de coletores menstruais Inciclo, defende que a menstruação deve ser discutida por todos os setores da sociedade. “A data é muito pertinente para fazer com que se pense em ações para alcançar um ambiente mais justo no que diz respeito às questões de gênero”, aponta. “Por isso, além de termos o Dia Internacional da Higiene Menstrual, todo o mês de maio é voltado para trazer à tona a visibilidade do ciclo menstrual”.

Em média, as mulheres gastam quase nove mil reais em absorventes descartáveis ao longo da vida, o que dá, aproximadamente, 210 reais por ano. Diante desses números, é de imaginar que a dignidade menstrual seja considerada um privilégio.

Mariana Betioli é obstetriz
Mariana Betioli defende que a menstruação deve ser discutida por todos os setores da sociedade. Crédito: Mariana Betioli

Na pandemia, com muitas pessoas perdendo seus empregos e ficando sem renda, a falta de produtos para menstruação passou a ser ainda mais frequente. Por conta disso, menstruar acaba se tornando um grande fardo para as mulheres.“Moradoras de rua, mulheres que vivem em abrigos e ainda aquelas inseridas no sistema prisional são as mais vulneráveis a esse problema. Porém, ele não se restringe a um público mais fragilizado”, afirma.

A obstetriz comenta que, de forma geral, até mulheres de classe média e classe alta acabam se privando de diversas atividades durante a menstruação como ir à praia, fazer ginástica e ter relações sexuais. "É de se imaginar o que uma mulher sem recursos e educação deixa de fazer por causa da menstruação".

Mariana Betioli

Obstetriz

"É triste perceber que existem mulheres que precisam escolher entre comprar comida ou absorventes. Estamos longe de uma condição de vida digna"

EM VITÓRIA

O Brasil tem 7,5 milhões de meninas que menstruam na escola, segundo o relatório Livre para Menstruar, divulgado em março e produzido pelo movimento Girl Up, com apoio da marca de calcinhas menstruais Herself e da organização Nossas.

Em Vitória, as vereadoras Camila Valadão (Psol) e Karla Coser (PT) enviaram, em abril deste ano, uma indicação ao prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), para que absorventes menstruais sejam incluídos em cestas básicas distribuídas pela prefeitura da Capital. A sugestão visa garantir o acesso de mulheres e meninas a um item de higiene básico, mas que ainda é negado àquelas em situação de vulnerabilidade social.

Desde o ano passado, existe uma lei municipal, de autoria do ex-vereador Roberto Martins (Rede), que obriga a Prefeitura de Vitória a oferecer absorventes a estudantes nas escolas

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