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O retrato e as construções possíveis da intimidade

Desde 2016, Nicolas Soares, com o projeto chamado Oretratista, tem experimentado as tensões do encontro com o outro proporcionado pelo dispositivo fotográfico

Publicado em 15/08/2020 às 14h00
Atualizado em 15/08/2020 às 14h00
Ana Luiza posa para Nicolas Soares no projeto Oretratista
Ana Luiza posa para Nicolas Soares no projeto Oretratista. Crédito: Nicolas Soares
  • Nicolas Soares

    É artista, pesquisa as relações de intimidade na fotografia (instagram.com/_oretratista)

O retrato é um formato clássico de representação desde a pintura. Foi dedicado a apresentar e enaltecer uma classe aristocrática, desde seu primórdio, com intuito de ir além do fidedigno da representação mimética, mas sim poder construir uma ficção baseada no desejo de como essa classe abastada gostaria de se apresentar socialmente.

A partir do século XIX, com a fotografia, uma tomada de posição da preocupação mimética se deslocou para a possibilidade virtuosa do dispositivo fotográfico dar conta do “real”, e principalmente de criar ficções. O retrato fotográfico ainda servia às altas classes e seus desejos de projeção social.

Entretanto, o retrato atravessa a História e cria uma redoma enigmática sobre seus personagens através do artifício, da solenidade, da austeridade, de uma imponência, através do devir – tempo, espaço, subjetividade. O retrato nos impõe a presença dessas pessoas que não sabemos o que as levou a posar diante da câmera para este fotógrafo, nem o que este pretende mostrar ou expressar.

Tatiana Rosa em foto de Nicolas Soares para a série Oretratista
Tatiana Rosa em foto de Nicolas Soares para a série Oretratista. Crédito: Nicolas Soares

Esse interesse de pesquisa, sobre as construções do retrato, ocasionou o projeto chamado Oretratista, no qual, desde 2016, tenho experimentado as tensões do encontro com o outro proporcionado pelo dispositivo fotográfico. Aproximação, distanciamento, ser afetado, estória, narrativa, artifício e ficção: uma intimidade fragmentada erigida do instante manipulado da apreensão da imagem do outro – fotógrafo e retratado.

Entretanto, pressupondo a fotografia, o gesto fotográfico deve levar em consideração os obstáculos tais qual o fotógrafo vem de encontro às intenções da sua própria cultura. Deparar-se com a fotografia é reconstituir a condição do gesto. O lugar onde estou como sujeito – pele, corpo, superfície – é imperativo no encontro com o outro e nas negociações entre subjetividades. Realoco a condição histórica do retrato pelo poder de ser um sujeito negro munido de uma câmera.

Larissa Godoy posa para Nicolas Soares no projeto Oretratista
Larissa Godoy posa para Nicolas Soares no projeto Oretratista. Crédito: Nicolas Soares

Desta forma, o íntimo fotografável é de todo uma manifestação política, pois fotografar é um movimento avante contra os desígnios de cada cultura própria. As “condições culturais dribladas” são a tentativa de uma aproximação que garanta a eficácia da experiência autêntica do fotógrafo (eu, mesmo) em suas circunstâncias.

Identificação e intimidade conectam algo de si com a figura do outro, ou por assim dizer, com a idealização da figura do outro. Assim se estabelece uma relação de transferência entre subjetividades, uma espécie de jogo de reconhecimento e procuração, em que um permite que seja dito em seu nome e em sua imagem, o nome e o corpo do outro. Uma vinculação simbólica e sintomática pela carência da completude de si como sujeito e da totalidade da imagem de seu próprio corpo. Roland Barthes pontua que cada um só pode se ver como imagem, ‘nunca vemos nossos olhos’, a não ser pelo subterfúgio do espelho ou através da fotografia.

O fotógrafo se lança ao sujeito fotografado e demanda a intenção de uma imagem subjetiva que diga algo de si. Poder-se-ia considerar que o fotógrafo cria a imagem do modelo à sua própria semelhança, e, em contrapartida, o modelo do retrato considera no fotógrafo a imagem narcísica do desejo do encontro de si mesmo.

Oretratista se aproxima de cinco anos de encontros e de deslocamentos simbólicos na relação com o outro. Oretratista aos poucos tem constituído o retrato de uma época visto a partir, principalmente, de Vitória; e tem negociado cada vez mais possibilidades de reorganizar arquétipos sociais, a beleza, a feiura e a imagem no tempo.

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