Publicado em 24 de novembro de 2025 às 16:04
Soldados da linha de frente da Ucrânia reagiram à proposta de paz feita pelos Estados Unidos com uma mistura de questionamento, irritação e resignação.>
A BBC conversou com meia dúzia de soldados, que enviaram suas opiniões pelas redes sociais e por e-mail, em resposta ao plano americano original, cujos detalhes vazaram na semana passada.>
Desde então, negociadores americanos e ucranianos vêm discutindo alterações das propostas e devem prosseguir com as conversações sobre a "estrutura da paz".>
Sobre o plano americano original, o soldado Yaroslav, no leste da Ucrânia, afirma que é "péssimo... ninguém irá apoiar".>
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Já um médico do Exército com codinome Shtutser rejeitou o plano como uma "proposta absolutamente vergonhosa de um plano de paz, que não merece nossa atenção".>
Mas um soldado, com codinome Snake, declarou que "está na hora de concordarmos, pelo menos, em alguma coisa".>
Aqui estão as diferentes opiniões dos soldados que conversaram com a BBC sobre os principais pontos do plano de paz proposto pelos Estados Unidos para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.>
Os Estados Unidos apresentaram uma proposta de paz em um momento em que a Rússia fez avanços significativos no campo de batalha. Só no mês passado, a Ucrânia perdeu para a Rússia 450 km² de terras.>
Kiev ainda controla cerca de 15% da região de Donbas, no leste da Ucrânia, que engloba os oblasts (divisões administrativas) de Luhansk e Donetsk e forma um dos principais objetivos de guerra da Rússia.>
Mas o plano americano original propõe que a Ucrânia entregue toda a região, incluindo até as partes defendidas com sucesso em cerca de quatro anos de guerra.>
"Deixe que eles peguem", declarou Snake à BBC.>
"Praticamente não sobrou ninguém nas cidades e aldeias... Não estamos lutando pelas pessoas, mas pela terra, enquanto perdemos mais pessoas.">
Andrii é oficial do Estado-maior da Ucrânia. Para ele, o que está sendo proposto para Luhansk e Donetsk é "difícil e doloroso", mas ele indica que o país pode não ter outra opção.>
A Ucrânia vem defendendo a região desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e seus aliados conquistaram partes de Donbas.>
"Podemos não querer entregar a região, mas não conseguiremos mantê-la com recursos e força militar", explica Andrii.>
O leste da Ucrânia foi o cenário dos combates mais intensos desta guerra e a Ucrânia perdeu dezenas de milhares de soldados na sua defesa.>
Matros luta desde 2018. Ele nos disse que entregar Donbas "anularia tudo — todos os esforços das forças armadas".>
"Isso desconsidera as vidas dos soldados e civis mortos", segundo ele.>
O plano de paz proposto pelos Estados Unidos prevê reduzir o tamanho das forças armadas da Ucrânia para 600 mil soldados.>
Este número ainda é significativamente maior do que antes da invasão, quando o número de soldados em tempo integral era de cerca de 250 mil. Mas é menor que o seu tamanho atual.>
As estimativas mais recentes indicam que o contingente militar ucraniano, atualmente, é de mais de 800 mil soldados.>
Snake acredita que o país precisará de muitos dos soldados atuais para ajudar a reconstruir a Ucrânia após o fim da guerra.>
"De que adianta ter tantas pessoas no Exército, se haverá garantias de segurança?", questiona ele.>
Andrii concorda. Para ele, "se houver garantias de segurança, é claro que não há razão para manter um exército tão grande".>
"As pessoas estão cansadas e querem retornar para suas famílias. Não há motivo para mantê-los em um exército em tempo de paz após a guerra.">
Ele acredita que a economia da Ucrânia seria incapaz de sustentar esse grande contingente militar em tempos de paz.>
Já Shtutser, o médico do Exército, discorda. Para ele, o Exército ucraniano "é só o que nos separa da derrota e da escravidão".>
Matros considera que a proposta de reduzir o contingente militar do país é "absurda e manipuladora".>
A disposição da Ucrânia de concordar com as propostas dependerá das suas futuras garantias de segurança.>
O plano de paz dos Estados Unidos descarta a entrada da Ucrânia na Otan, mas não na União Europeia.>
Existe a promessa de garantias de segurança dos Estados Unidos se a Rússia atacar novamente, mas as propostas não detalham o alcance desse apoio. O plano também descarta a presença de forças da Otan na Ucrânia, em caso de acordo.>
Mas Yevhen, operador de drones no leste da Ucrânia, acredita que a presença de tropas estrangeiras no país é uma importante garantia da segurança.>
O Reino Unido e a França vêm liderando os esforços para fornecer uma "força de garantia" no caso de cessar-fogo, através de uma "coalizão dos dispostos".>
"Gosto do plano britânico de colocar tropas na Ucrânia" através da coalizão, afirma ele. "Este é o único plano que nos ajudará a vencer: introduzir tropas aliadas.">
Mas Andrii não acredita que a Europa possa oferecer muitas garantias de segurança.>
"A Europa se mostrou totalmente covarde e dividida", segundo ele. "Parece que toda a esperança está apenas nos Estados Unidos.">
Já outros soldados indicam não terem também muita fé nos Estados Unidos. Para Schtutser, por exemplo, "as garantias de segurança americanas com o governo atual não representam nenhuma garantia".>
O plano de paz proposto pelos Estados Unidos dispõe que a Ucrânia realize novas eleições em até 100 dias após o final do conflito. A Constituição ucraniana impede a realização de eleições em tempos de guerra.>
Mas existem sinais de frustração cada vez maior com o governo atual, que enfrenta sérias acusações de corrupção.>
O Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia investiga atualmente acusações de indivíduos que lucraram com contratos no setor de energia, em valores que somam US$ 100 milhões (cerca de R$ 540 milhões).>
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já foi obrigado a demitir dois dos seus ministros, que negam as acusações. Um ex-primeiro-ministro e um parceiro comercial também estão sob investigação.>
O escândalo gerou conflitos políticos internos, vem dominando as manchetes no país e é outro tema importante no front de batalha.>
Os soldados com quem conversamos apoiam as novas eleições.>
"É claro que são necessárias", afirma Snake. "Os que estão agora no poder não são confiáveis.">
A soldada Marin também é a favor das eleições. Para ela, é "preciso eliminar a corrupção" do governo atual.>
Já Andrii concorda que "é necessária uma reinicialização completa do governo" com novas eleições, mas não imediatamente.>
As novas eleições podem muito bem ser a proposta menos controversa do plano de paz. Mas, de forma geral, existem sérias preocupações em relação às propostas americanas.>
Yaroslav afirma que simplesmente "não irá funcionar", enquanto Oleksandr rejeita a proposta com um palavrão.>
A mensagem clara das pessoas com quem conversamos é que muitas delas estão cansadas de lutar. Andrii, por exemplo, está preocupado com algumas das propostas, mas conclui: "Se puser fim à guerra, está bom para mim".>
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