Destaques
Dom, 23 de Janeiro de 2022

Venda de sentença: Hilário negociou propina na frente da filha, apontam mensagens

Em mensagens entre Hilário Frasson e o juiz Alexandre Farina, apontados pelo MPES como intermediários no suposto esquema, o magistrado cita a presença da filha do ex-policial em um encontro

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 27/07/2021 às 12h53
Data: 21/09/2017 - ES - Vitória - Caso da médica Milena Gottardi Frasson, 38 anos, assassinada no estacionamento do Hospital das Clínicas (HUCAM) - Hilário Antônio Fiorot Frasson, ex marido da médica e policial civil,  foi preso enquanto trabalhava, ele é suspeito da morte da médica - Editoria: Polícia - Foto: Fernando Madeira - NA
Hilário Antônio Fiorot Frasson, ex-policial civil, está preso acusado de ter mandado matar a ex-esposa. Crédito: Fernando Madeira

As conversas entre o ex-policial civil Hilário Frasson e o juiz Alexandre Farina sugerem que uma reunião entre os dois para tratar de detalhes do suposto esquema para venda de sentença aconteceu na frente de uma das filhas de Hilário. Em 2017, na época das mensagens, encontradas pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) no celular do ex-policial, as duas filhas de Hilário tinham dois e nove anos de idade.

A presença de uma das meninas na reunião entre os dois, que são apontados como intermediários do esquema, teria acontecido próximo à casa de Farina, em um encontro no dia 24 de fevereiro de 2017. Nesse dia, aponta a investigação do Ministério Público, Hilário foi à casa do juiz, de onde ligou para o empresário Eudes Cecato, o responsável por pagar a decisão judicial, ainda de acordo com a investigação.

A suspeita é que a conversa teria sido realizada para acalmar o magistrado, que demonstrava preocupação com atrasos em pagamentos e a falta de discrição de outros envolvidos no esquema. "Amanhã se quiser é para eu ligar para ele na sua frente", escreve Hilário a Farina, antes de acertarem os horários.

De fato, no dia do encontro, as informações colhidas pelo Ministério Público apontam que Hilário ligou para Eudes. O encontro entre o ex-policial e o magistrado teria durado 36 minutos.

Preocupado, Farina seguiu nos dias após a reunião se queixando a Hilário de preocupações quanto ao esquema. Segundo o juiz, o atraso nos pagamentos, aos quais ele chamava de "vaca" ou "rebanho", estariam lhe tirando o sono. Cinco dias depois do encontro, ele afirma que não dormia direito desde o dia que Hilário havia ido até a sua casa com "a filhinha no carro".

VEJA O DIÁLOGO

Farina: Ele te entrega o rebanho hj?

Hilário: Espero que sim

Farina: Pelo amor de Cristo, espera não. Isso é pq não quer ver ou que está tudo tranquilo resolvido?

Hilário: Os dois

Farina: Rapaz, não faça isso com seu irmão aqui não, tenho mulher e filhos para criar. Quer me matar do coração. Pelo amor de Cristo. Já não durmo direito desde aquele dia foi lá em casa pela manhã com sua filhinha no carro

Desde setembro de 2017, quando a médica Milena Gottardi foi assassinada, em um crime que Hilário é apontado como mandante, as filhas do ex-policial moram com o tio, irmão de Milena. Em 2019, ele conseguiu na Justiça a guarda definitiva delas. Hilário vai a julgamento pela morte de Milena Gottardi no próximo dia 23 de agosto, em Vitória.

Quanto ao caso da venda de sentença, ele foi ouvido na última semana pelo MPES, que ainda está investigando as supostas irregularidades.

O suposto esquema foi descoberto a partir da investigação do assassinato da médica Milena Gottardi. O executor confesso, Dionatas Alves Vieira, mencionou em depoimento que Hilário orientou que a médica fosse morta na Serra, onde ele teria um "juiz amigo".

A partir deste fio, o MPES passou a tentar identificar quem era o juiz amigo de Hilário e, a partir da quebra do sigilo telefônico do ex-policial, chegou ao diretor do Fórum da Serra, o juiz Alexandre Farina, também afastado pelo TJES. Farina e Hilário atuaram, segundo as investigações, como intermediários entre o empresário Eudes Cecato e o juiz Carlos Alexandre Gutmann.

OUTRO LADO

A defesa de Alexandre Farina afirmou que foi surpreendida com o julgamento que definiu o afastamento do juiz do cargo e reforçou, por nota, "o compromisso do magistrado em colaborar com a Justiça, a fim de esclarecer todos os fatos que se encontram em apuração".

"A decisão do tribunal pleno foi uma surpresa para todos nós, tendo em vista que o inquérito visa apurar fatos de 2017 e que, portanto, não possuem contemporaneidade para uma medida tão drástica como uma cautelar penal. De toda sorte, como ainda não foi nos dado acesso e nem intimados, não temos condições de analisá-la de forma mais acurada, mas assim que uma coisa ou outra acontecer iremos tomar as medidas necessárias. O juiz Alexandre Farina Lopes continua à disposição da Justiça capixaba, da mesma forma como sempre se portou nesses mais de 18 anos dedicados à magistratura, ou seja, com todo o respeito necessário ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo", diz a nota assinada pelos advogados Rafael Lima, Larah Brahim, Mariah Sartório, Kakay, Roberta Castro Marcelo Turbay, Liliane Carvalho, Álvaro Campos e Ananda França.

Quanto aos diálogos transcritos no inquérito, a defesa de Farina diz que eles não são reconhecidos pelo magistrado: "Infelizmente não podemos nos posicionar quanto aos diálogos, na medida em que eles não são reconhecidos pelo juiz Alexandre Farina. Já que teriam sido extraídos do aparelho celular de um terceiro. Além do mais, ainda não sabemos em quais condições essa extração foi realizada, portanto, a legalidade dessas informações é duvidosa".

A defesa de Eudes Cecato disse que, desde que o empresário ficou ciente dos fatos investigados, prontamente acatou todas as demandas indicadas e se colocou à disposição para colaborar com as investigações. "Sendo assim, registra seu mais alto interesse em contribuir para o esclarecimento de todos os fatos, de maneira que a Justiça seja feita", escrevem os advogados Fernando Ottoni e Clécio Lemos em nota enviada à reportagem.

O advogado de Hilário, Leonardo Gagno, disse na última semana que ainda não havia sido notificado sobre a investigação no caso da venda de sentença. A reportagem o procurou novamente esta semana, mas não obteve retorno.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.