ASSINE

Tragédia em Linhares: confira o passo a passo das perícias

Somente por meio das inúmeras técnicas e do conhecimento científico dos profissionais, a polícia conseguiu entender o que realmente havia se passado dentro da residência

Publicado em 23/05/2018 às 23h19
A perícia da Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros estiveram na casa incendiada em Linhares. Crédito: Brunela Alves
A perícia da Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros estiveram na casa incendiada em Linhares. Crédito: Brunela Alves

O trabalho das perícias da Polícia Civil e do Corpo de Bombeiros foi o ponto fundamental para desvendar como, de fato, o pastor George Alves agiu no assassinato brutal dos meninos Joaquim, 3, e Kauã, 6 anos.

Somente por meio das inúmeras técnicas e do conhecimento científico dos profissionais, a polícia conseguiu entender o que realmente havia se passado dentro da residência na madrugada de 21 de abril, em Linhares.

O QUARTO

Uma das primeiras pessoas a acessar o local do incêndio foi o tenente-coronel Ferrari, comandante do Batalhão do Corpo de Bombeiros de Linhares e também perito. Segundo ele, desde o início já tinha a desconfiança de que algo estava errado no primeiro depoimento do pastor George.

A versão inicial do suspeito era de que o fogo teria começado após um suposto curto-circuito no aparelho de ar-condicionado, que ficava logo acima dos beliches onde os irmãos dormiam.

De acordo com Ferrari, as imagens das câmeras de segurança mostram que o incêndio se iniciou por volta das 2h20, e a guarnição dos Bombeiros chegou ao local em apenas 10 minutos.

Esse não seria tempo suficiente para uma destruição tão grande, como a encontrada pela equipe, no momento em que entrou na casa para combater o fogo.

“Como o local estava totalmente fechado, havia pouca oferta de oxigênio. Somente quando a porta fosse aberta, as chamas deveriam aumentar. Quando chegamos, percebemos uma destruição grande, incompatível com aquele tipo de incêndio. A não ser que um acelerador tivesse sido utilizado. Um combustível”, ressaltou o comandante dos Bombeiros.

CORPOS

Em seguida, continuando os trabalhos de perícia, ele percebeu que as vítimas haviam sido encontradas no foco do incêndio, sequer tiveram oportunidade de tentar se salvar, como ocorre em um acidente.

“Normalmente as pessoas que morrem em um incêndio acidental tentam correr, fugir, e acabam se perdendo no caminho, inalando fumaça e morrendo em seguida, mas longe do foco do fogo”, explicou o tenente-coronel.

Isso levava a crer que os dois estavam inconscientes no momento em que queimaram.

EXAME 

O desmaio poderia ter sido causado pela fumaça inalada, porém, outro trabalho de perícia, agora a toxicológica, descartou a intoxicação.

“O objetivo foi determinar se eles foram dopados, pois não tiveram reação, além de determinar o grau de substâncias que aparecem em vítimas de incêndio, que são o cianeto e a carboxihemoglobina, presentes nos corpos”, revelou o perito Fabrício Pelição, chefe do Departamento de Laboratório Forense.

Com a realização dos exames nas vítimas, os peritos chegaram à conclusão de que Joaquim e Kauã morreram por conta do fogo, e não tinham índice suficiente de intoxicação para uma perda de consciência, porém, estavam desacordados.

Assim, a versão do pastor de que eles estavam gritando, no momento em que George teria tentado salvar os filhos, começou a ser desmentida.

OS 4 FATOS QUE DESMENTEM A VERSÃO DO PASTOR

1- Luminol

Um passo importante na investigação foi o uso do luminol, substância para identificar vestígios de sangue, encontrado pelos peritos no box do banheiro social da residência e na escrivaninha do quarto das crianças.

Um teste de DNA foi realizado e comprovou que se tratava do sangue de Joaquim, de 3 anos. O último e decisivo exame realizado para desvendar o crime foi um exame nos corpos.

2 - Proteína do sêmen

Os peritos conseguiram detectar a presença de uma proteína chamada PSA, que compõe o sêmen humano, nas partes íntimas dos corpos dos irmãos.

3 - Combustível

Além disso, o Laboratório de Química Forense da Polícia Civil conseguiu identificar a presença de um combustível derivado do petróleo nas partículas que restaram dos objetos queimados no quarto.

Assim, os delegados que compuseram a força-tarefa para a elucidação do caso puderam ter a certeza do que aconteceu, como ressalta o delegado André Jaretta.

“As coisas foram se encaixando. Conseguimos comprovar tecnicamente que o pastor molestou as crianças, espancou, a ponto de deixá-las desacordadas e , em seguida, colocou os dois na cama e ateou fogo, matando os irmãos de forma cruel e fria”, lamentou.

4 - Depoimentos

Além das provas técnicas irrefutáveis, a polícia contou com o depoimento de dezenas de testemunhas, que revelaram as contradições da história contada pelo pastor. A polícia não teve dúvida e deve indiciar George Alves por duplo homicídio qualificado e duplo estupro de vulneráveis.

AS INVESTIGAÇÕES

1ª Perícia

Madrugada de sábado, dia 21/04

O primeiro exame do local foi realizado pelo perito Deyvid (plantonista de Linhares). Foram realizados os procedimentos periciais iniciais, como fotografias e recolhimento dos cadáveres, que foram encaminhados ao Departamento Médico Legal (DML). O local estava escuro e insalubre, além de muito quente, devido ao incêndio. O perito constatou tratar-se de local de exame complexo, o que demandou perícia de caráter multidisciplinar, momento em que foi solicitada a participação das equipe de Polícia Técnico-Científica da Capital.

2ª Perícia

Terça-feira, dia 24/04 (Núcleo de Engenharia Forense)

Como o caso era complexo – um incêndio de grande monta e com duas vítimas fatais – foi acionado o Núcleo de Engenharia, que realizou exame a respeito da causa e dinâmica do incêndio. A equipe foi composta por um engenheiro civil, um engenheiro de segurança e dois engenheiros eletricistas. Esse foi o momento em que os peritos coletaram as informações que determinariam se a versão dada pelo pastor, de que o incêndio começou pelo ar-condicionado, era compatível com os vestígios que foram encontrados no local do incêndio.

3ª Perícia

Sexta feira a noite, dia 27/04 (Núcleo de Reprodução Simulada e Exames Complementares)

Foi realizado exame na casa em busca de material biológico, como sangue oculto e sêmen, utilizando o luminol e luzes forenses.

O luminol reage com o ferro presente na hemoglobina do sangue, emitindo luminescência (brilho) azulado, e por isso deve ser feito no escuro. Enquanto, para cada tipo de material biológico (sêmen, urina, saliva, sangue, etc) utiliza-se uma fonte de luz diferente (comprimento de onda/cor), como luz ultravioleta e luz infravermelha, identificando a possível presença dos materiais no local, que seriam encaminhados a exames laboratoriais.

Na residência, os peritos coletaram materiais encontrados a partir dessas técnicas. O principal material encontrado foi o sangue do menino Joaquim Alves Salles, de 3 anos. Vestígios foram achados no box do banheiro social da residência e nos restos da escrivaninha incendiada no quarto dos irmãos.

4ª Perícia

Quarta-feira à noite, dia 02/05. (Núcleo de reprodução simulada e exames Complementares)

Foram realizados exames no carro apreendido que estava sendo utilizado pelo pastor George. Os peritos estavam em busca de mais material biológico, como sangue oculto. Para tal, foi utilizado o reagente químico luminol novamente, além de luzes forenses.

Os peritos ainda encontraram um galão, que teria sido lavado, cujo conteúdo foi encaminhado ao Laboratório de Química Legal, para verificar a presença de substância inflamável. O resultado dos exames realizados no galão e no quarto que pegou constatou a presença de combustível derivado de Petróleo.

5ª Perícia

Sexta-feira, dia 11 de maio

Peritos voltaram à casa para realizar medições e coletar material para o exame do LQL (barulho de pancadas: coleta de madeira como material de referência para exames laboratoriais).

Provas técnicas

Após a realização de todas as perícias e com os resultados dos laudos técnicos, a força-tarefa criada para agilizar a conclusão do caso, composta por seis delegados, 25 peritos e outros integrantes, chegou à conclusão de que o pastor George Alves era o assassino dos meninos Joaquim e Kauã, além de terem conseguido elucidar a forma que ele agiu e ainda esclarecer o fato de que ele estuprou e agrediu as vítimas, antes de jogá-las na cama e atear fogo nos corpos.

A Gazeta integra o

Saiba mais
crime tragédia em linhares

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.