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Data: 29/11/2019 - ES - Vitória - Vicente Ramatis Lima, psiquiatra - Editoria: Cidades - Foto: Vitor Jubini - GZ
Vicente Ramatis Lima

"Se não houver interferência, vítima de stalker acaba morta"

Especialista alerta para o perigo que representam as pessoas que começam a perseguir outras, principalmente após términos de relacionamentos

Data: 29/11/2019 - ES - Vitória - Vicente Ramatis Lima, psiquiatra - Editoria: Cidades - Foto: Vitor Jubini - GZ
Publicado em 07/12/2019 às 11h26

Stalker. A palavra em inglês se popularizou com o uso massivo das redes sociais e, até para quem não domina o idioma, há uma breve noção de que, na gíria, refere-se às pessoas que gostam de bisbilhotar a vida alheia na internet. Mas o termo carrega um peso muito maior e mais perigoso para quem é alvo do perseguidor, no mundo virtual e no real, podendo terminar até em morte. Estudioso do tema, o psiquiatra Vicente Ramatis Lima aponta, nesta entrevista, como perceber os sinais de stalking (perseguição) e defende a criação de uma lei para criminalizar a prática, assim como já existe em outros países.

Estamos vivendo em um momento com mais casos de stalking (perseguição)?

Com o advento da internet, os casos cresceram exponencialmente. Mas é bom frisarmos que é um problema detectado há muitos anos só que, na nossa sociedade moderna ocidental, não tão bem valorizada a princípio. Nos anos 90, tivemos a primeira lei nos EUA, na Califórnia, mas só depois que uma celebridade foi assassinada por um stalker (perseguidor). Com a repercussão desse caso e de outros que se seguiram, passamos a ter um olhar diferente, as pessoas começaram a se ater melhor a essa questão. Então, surgiram leis (não no Brasil) que passaram a diferenciar esse tipo de situação.

O que levou a esse crime?

O caso dessa atriz - Rebecca Schaeffer - é bem emblemático. Era uma daquelas atrizes que cresceram na frente das câmeras. Desde menina aparecia em séries e tudo o mais, e aí ela se tornou adulta e fez uma cena um pouco mais picante. Ela já tinha um stalker que a acompanhava e que, no entender dele, na cabeça dele, sentiu-se traído com aquilo. Então, contratou pessoas que conseguiram descobrir o endereço da atriz. Ele foi até a casa dela e a assassinou. Quando foi preso, falou que matou porque ela tinha destruído o sonho dele, quebrado a inocência de tudo aquilo que ele gostava de ver. Como ela era famosa, a mídia descobriu que havia três anos que ela fazia queixas contra esse cara e que nenhuma ação tinha sido tomada. Logo em seguida, em poucos meses, aconteceram mais alguns casos com essa repercussão pelos Estados Unidos. Então, em 1990, a Califórnia aprovou a primeira lei contra stalker e depois outros Estados foram seguindo o exemplo até se tornar uma lei federal, que também foi adotada em outros países.

Casos de feminicídio também podem ser relacionados ao stalking?

Muita história de feminicídio é isso: o cara vai lá e mata a mulher e, se formos olhar bem o bastidor, muitas vezes é um parceiro que vinha seguindo a ex-companheira há um certo tempo, não aceitando que tivesse outra relação, e acaba cometendo o assassinato. É algo prenunciado. Antes, não se tinha nome para isso, pelo menos na sociedade brasileira. Hoje sabemos que é uma questão de stalker, palavra inglesa que designa o indivíduo que está perseguindo, vigiando, espreitando o outro.

Quais as características de um stalker?

Quando falamos de stalker, há vários sub-cenários. A ação é uma só: alguém perseguindo o outro, mas características distintas. A primeira coisa que vamos designar, pelo olhar do médico psiquiatra, é se estamos lidando com um psicótico ou não-psicótico. Ou seja, se tem consciência agregada à realidade ou não; se é mais delirante. Quando o indivíduo é psicótico, tem grande oportunidade de tratamento e possibilidade de solução, de melhora dos sintomas. O indivíduo que não é psicótico, é outro cenário e há várias situações diferentes. Um psicopata, por exemplo, pode resolver perseguir a sua vítima por vingança de uma rejeição, ou por algo que julga que perdeu. Os psicopatas têm a visão do outro como objeto e não têm a consciência de respeitar o próximo. Existe também o indivíduo que não é psicopata, como o narcisista que, por narcisismo mesmo, não vai aceitar ser rejeitado.

Em geral, a perseguição se dá por motivos de natureza afetiva ou sexual?

A princípio, seria uma questão afetiva, mas pode haver outras razões. No caso dos psicóticos, por delírio acham que aquele é o caminho. Já os psicopatas por achar que perderam algo que não admitem perder. As pessoas com transtornos obsessivos acreditam que têm alguma chance com a vítima. São realmente muitos sub-cenários. No caso de pessoas famosas, por exemplo, na cabeça de um stalker ele pensa que tem um amor secreto e que está sendo correspondido.

Uma pessoa considerada “normal” pode assumir uma conduta de perseguição?

Pode sim. Alguém que tenha um relacionamento rompido, pode abrir um quadro desses e começar a perseguir o ex-parceiro. Na maior parte dos casos de stalker, se não houver interferência muito séria da família, da Justiça, é letal. Termina com a morte das vítimas. A conduta é um crescente. Começa com telefonemas, passa a cercar a pessoa nos ambientes que ela frequenta e, quanto mais o outro rejeita, mais intensifica. Dependendo do perfil, começa a ficar com ódio. Aí, o stalker passa a fazer as coisas com raiva. A vítima do stalker tem um dano psicológico, financeiro e moral muito grande. São situações graves. Atendi e acompanhei casos de mulheres vítimas de stalker, como o de uma moça que era vaidosa, gostava de se cuidar, ia para academia e, de repente, está deprimida, com medo de sair de casa, está com pânico, está ganhando peso, está desmotivada, com ideação suicida. É um dano muito grande.

As mulheres são as principais vítimas?

Segundo o Centro Americano de Estudos, que é voltado para esse tipo de crime, a proporção é de uma em cada seis mulheres, e de um a cada 19 homens.

E quais sinais indicam que uma abordagem pode se tornar perseguição?

No momento que alguém diz “não” para o outro, esse “não” tem que ser respeitado. Se diz “não” e o outro persiste, pode-se caracterizar um assédio, uma perseguição. É claro que, às vezes, tem o apaixonado que passa um pouco do ponto, que é inconveniente mas que, no momento que leva uma “dura” de algum familiar, por exemplo, para de perseguir. Já o stalker não respeita nada. Ele faz uma perseguição incisiva. No início, pode parecer romântico, dando presentes, ligando, mandando flores. Mas quando a vítima começa a se defender, a bloquear nas redes sociais, a não atender às ligações, é nessa hora que, geralmente, o stalker começa a ficar com raiva e a adotar ações mais severas. Acompanhei o caso de uma mulher de classe média que o stalker fez cerca de 400 denúncias caluniosas, de todo tipo, contra ela. Sempre é algo estarrecedor. Na Medicina, costuma-se dizer que a gente não se surpreende mais com as coisas. Mas, quando se trata de stalker, a gente sempre vai se surpreender com as ações que uma pessoa num transtorno desses pode cometer.

Com essa conduta amigável inicialmente, há mulheres que não percebem o risco e romantizam o stalking?

Sim. Há uma série (norte-americana) passando na TV sobre o caso de um stalker (You, na Netflix). Quando a série começa, mostra o cara perseguindo a mulher e, aqui no Brasil, muitas mulheres acharam aquilo bonito, tratando como amor incondicional o cara vigiando a mulher. Surgiu até a hashtag “eu quero um Joe (personagem) pra mim”. A empresa que estava produzindo essa série ficou preocupada, pegou o ator, ensinou a ele uma frase em português e fez uma propaganda em que ele aparece falando “não era amor, era cilada”, dada a gravidade da situação. Estamos num ponto de evolução, de muitas conquistas, de leis como a Maria da Penha que protegem as mulheres. Mas ainda falta muito acontecer e a lei do stalker precisa sair o mais breve possível.

Há estudos no país sobre o tema?

Estamos desenvolvendo, eu e a médica Renata Ribeiro, um estudo e pretendemos publicar um livro até o início do ano que vem. No Brasil, ainda são muito incipientes. A maior parte dos trabalhos que lemos está baseada em trabalhos americanos, ingleses, espanhóis e portugueses. Aqui, começamos a partir dos casos de vítimas que nos procuraram, que foram perseguidas e estão em crise de pânico, deprimidas, e depois passamos a fazer pesquisa também no meio jurídico.

Existem muitos stalkers entre nós?

Existem sim. A internet proporcionou esse crescimento. Aumentou muito também porque estamos vivendo a era das pessoas tentando se tornar celebridades, que querem aparecer nas redes, mas se esquecem que por lá também estão muitas pessoas com transtornos. A questão é que, até pela nossa cultura, os homens que são vítimas muitas vezes ficam constrangidos em falar, e as mulheres têm um pouco de dificuldade de serem ouvidas. A situação não é vista da forma como deveria. Tenho o caso de uma paciente que foi à Delegacia da Mulher fazer queixa contra um stalker e ouviu lá dentro que a prática não é contra a lei. Isso nos causa pesar porque, mesmo que não seja lei ainda, a obrigação é dar atenção à vítima que vai procurar ajuda. Depois, se ser stalker não é crime, há muitas condutas criminosas que são praticadas no ato da perseguição. Quando se olha com um pouco mais de boa vontade, é claro que vão encontrar na ação de um stalker um monte de crimes. E não se pode esquecer: é apenas o prelúdio de algo mais grave, de um assassinato. Uma mulher ir a uma delegacia para fazer uma queixa, e sair de lá sem conseguir registrar minimamente um boletim de ocorrência, é algo que precisa ser mudado. Por isso, caracterizar o stalker como crime é um passo importante do reconhecimento das ações danosas sobre suas vítimas.

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