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Especialista prevê que máquinas e sistemas vão substituir carreiras

Membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da OIT, Claudia Costin diz que profissionais serão forçados a se reinventarem o tempo todo

Publicado em 07/07/2018 às 20h00
Atualizado em 06/04/2020 às 21h48

O mercado de trabalho está em transformação, e no futuro as mutações serão ainda mais constantes. Máquinas e algoritmos aos poucos vão substituir algumas carreiras, forçando os profissionais a se reinventarem o tempo todo. É o que afirma Claudia Costin, fundadora e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e integrante da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT), das Nações Unidas.

Segundo a especialista, que esteve em Vitória na última segunda-feira, 02, para participar de palestra promovida pelo Instituto Líderes do Amanhã, as escolas precisam se adaptar para preparar crianças e jovens para essa nova realidade corporativa. Nesta entrevista, ela fala sobre as características essenciais para quem quer se manter na ativa.

É possível traçar quais vão ser as principais características profissionais exigidas no futuro?

Estamos vivendo um momento de rápida automação, substituição de trabalho humano por máquinas e por algoritmos, por meio da inteligência artificial. Nesse contexto, muitos postos de trabalho serão extintos dentro de determinadas profissões. Só para exemplificar, na área de Jornalismo, hoje já existe software que reúne dados e a narrativa é construída automaticamente, sem precisar de grande elaboração. Em Direito também, muito do que se faz hoje é por meio da economia digital, ou seja, torna aquilo que um advogado em início de carreira fazia, desnecessário. E isso vai ocorrer em várias profissões. Algumas delas podem ser inteiramente extintas, bem como vários postos de trabalho. Isso normalmente não é um problema, porque outros tipos de atividades serão criados e outras profissões também. Mas a pessoa que hoje ocupa uma função não tem necessariamente as competências adequadas para um trabalho do futuro. Então, não sabemos muito bem o que pode acontecer, temos somente algumas evidências que podem nos ajudar. Tudo aquilo que nos torna humanos, a máquina dificilmente vai aprender a fazer, como por exemplo, a empatia. Até hoje, nós não sabemos o que farão as máquinas no futuro, mas entendemos que só um ser humano é capaz de sentir empatia, se colocar no lugar do outro. Assim, uma série de postos de trabalho associados ao cuidado a idosos, por exemplo, vai continuar existindo e as máquinas eventualmente ajudarão esses profissionais. A resolução colaborativa de problemas também é uma questão que seres humanos podem fazer por competência: identificar quais obstáculos da humanidade ainda precisam ser resolvidos e colocar diferentes áreas de conhecimento em times interdisciplinares com o objetivo de colaborar com a resolução dessas dificuldades. Isso é algo que deveria ser enfatizado na educação de crianças, adolescentes e jovens.

Como o profissional que já está no mercado de trabalho pode se preparar para esse futuro?

Quem já está no mercado de trabalho precisa desenvolver duas competências que se complementam. Uma delas é a de aprender permanentemente, entender que está nas mãos dele aprender. A outra é descobrir que ele é o protagonista da sua própria vida e que ninguém vai fazer isso por ele. Isso pode ser algo que um jovem que está começando no mercado de trabalho pode assimilar, mas que preferencialmente a escola deve ensinar as crianças desde muito pequenas. Descobrir que você é o principal responsável pela construção do seu sonho profissional faz você ter garra, uma mistura de esforço com paixão. Muita persistência e capacidade de se reinventar sempre serão determinantes quando uma onda de extinção de postos de trabalho vier.

A tecnologia está transformando as profissões. Algumas estão surgindo e outras vão perdendo cada vez mais espaço. Como fica o profissional?

A primeira coisa necessário saber é que não cabe a esse profissional se vitimizar, porque a autopiedade não é uma boa conselheira. Ao mesmo tempo, o profissional necessita ir à luta pela construção de seu projeto de vida. Se a profissão com a qual você sonhava não vai mais existir daqui uns anos, que tal começar a olhar para o leque de opções e pesquisar como você se pode se preparar. Melhor ainda quando a universidade percebe que não tem mais que só pensar em um curso de cinco anos e depois acabou. Um teórico de formação do nível superior diz que a faculdade tem que ser preparar para o contato permanente com seus ex-alunos, dos egressos de seus cursos, e oferecer opções de três meses, de um ano, ou até mais curto do que isso, para que eles se requalifiquem de acordo com o que o mundo vai precisar. Não terá mais uma universidade que só dá a formação ou oferece mestrado, haverá idas e voltas constantes para as instituições de ensino, seja na modalidade de educação a distância ou presencial, para que o ex-aluno possa ter nela um apoio ao processo de reinvenção de carreiras. Inclusive estamos em período de eleições, então é necessário olhar para essa situação e pensar quem serão seus representantes e o que eles pensam sobre a construção de um Brasil mais inclusivo, mais preparado para lidar com os desafios do futuro do trabalho.

Nesse cenário, profissões que demandam menos escolaridade e pagam salários mais baixos são as mais ameaçadas?

Algumas sim outras não. Eu dei exemplo do cuidador de idosos. Esse não está ameaçado, o que não quer dizer que o profissional dessa área não tenha que se preparar. O que for o trabalho repetitivo e rotineiro estarão certamente ameaçados. Talvez, se pensar em carreiras que demandam escola de nível técnico, essas continuam, desde que elas ensinem esses técnicos a se reiventarem. E por que as ênfase em reinvenção? Porque hoje as máquinas aprendem. Há um fenômeno - que em inglês é chamado de machine learning - que mostra como os softwares vão sendo ensinados por meio da inteligência artificial a aprenderem. Se ficarmos atentos, o que demanda trabalho não rotineiro e intelectual também podem desaparecer. Alguns autores falam que o mundo que a gente viverá tende a ser muito mais injusto, no sentido do crescimento da desigualdade de renda, por conta da extinção de posições que demandam menos escolaridade. Nesse sentido, uma das sugestões é pensar em uma renda mínima universal para proteger aqueles que ou estão em transição entre dois trabalhos ou aqueles que não conseguem mais ser empregáveis. É importante lembrar que alguns dos profissionais mais velhos não têm mais tempo para adquirir novas competências e alguém precisa zelar pelo bem estar dessas pessoas, que precisam ter condições de ter uma vida digna.

Quanto a formação educacional de crianças e jovem vai interferir na sua carreira posteriormente?

Vai interferir bastante, como sempre ocorreu. Uma criança ou adolescente deve aprender bem os pilares do conhecimento humano, ter a capacidade de ler e interpretar textos, extrair informações importantes desse conteúdo, ter raciocínio matemático, e não aprender a simplesmente fazer continhas, para desenvolver uma mente investigativa. Essa é a base de qualquer ciência. Junto com essas coisas esse aluno deve ter competências socioemocionais como persistência, garra, empatia, capacidade de trabalhar em equipe e na resolução de problemas. Se ele aprender isso desde a primeira infância, as chances vão ser muito maiores que a criança tenha mais facilidade de navegar nesse mundo tão incerto que a gente vai viver. Agora, os jovens que estão no nível médio hoje terão que complementar sua formação. Nesse sentido a base nacional comum curricular é positiva, porque fala em aprender via experimentação, aprender a desenvolver competências do século XXI que vão ajudar bastante.

A escola tem que acompanhar as mudanças de trabalho?

Eu acho que a sociedade como um todo tem que fazer isso inclusive os pais, que tem papel importante em relação a isso. Temos que ficar mais atento às crianças mais vulneráveis cujo os pais não tem necessariamente a formação adequada para isso. É preciso trabalhar com eles, que ainda não sabem e também com os de classe média, para fazer um trabalho importante de incentivando a criatividade e a leitura das crianças. É por meio dos livros que esses estudantes se torna um adulto capaz de refletir e de ter empatia com os outros. A leitura das crianças e dos jovens é muito importante ser incentivada tanto pela casa quanto pela escola.

Depois da PEC dos gastos e a MP da reforma do ensino médio, o que muda na educação e qual a sua expectativa para os próximos anos?

A PEC dos gastos foi uma erro. Um país que quer de verdade ser inovador, que participa do mundo que vamos viver daqui para frente, deve colocar a educação em primeiro lugar, não só no discurso, mas também na prática. Então, colocar um teto nos gastos em educação num momento que a atividade da carreira ainda não é grande e que os salários não estão em um patamar que deveriam estar, a meu ver foi um erro. Com relação às mudança no ensino médio, acho que foi importante reduzir o número de disciplinas oferecidas. Hoje o Brasil tem quatro hora de aula, em media. Isso claramente é insuficiente. Se você pegar os 30 primeiros países, num teste internacional que se chama Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) - que mede o nível educacional do jovens de 15 anos - o Brasil está nos últimos lugares. Os 30 primeiros colocados nessa avaliação têm uma coisa em comum: nenhum deles tem menos de sete horas de aula. Nós temos só quatro. Ao mesmo tempo, esses primeiros do ranking têm sete ou nove horas por dia e nenhum deles têm 13 matérias, todos têm de oito para menos. O que fazemos é que damos um verniz de conteúdo para cada disciplina, mas não ensinamos a pensar dentro em cada disciplina. É preciso que o aluno aprenda historicamente e não só ter aula de história. Aprender a pensar matematicamente e não só ter aula de matemática correndo. Ler e a refletir sobre a literatura brasileira e portuguesa ou até universal, que nos traz tantas coisa interessantes para a reflexão. Não é só a filosofia que nos ensina a pensar, literatura, matemática também ensinam. Nesse sentido acertou a reforma do ensino médio: diminuir o número de disciplinas e dar mais densidade para cada uma delas.

O que podemos falar do desafios do futuro que podem influenciar na educação e refletir no trabalho?

O Brasil já tem uma meta estabelecida assinado com o objetivo do desenvolvimento sustentável, em setembro de 2015. Inclusive assegurando uma educação mais inclusiva, equitativa e de qualidade, promovendo oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Uma das metas é assegurar a conclusão do ensino fundamental e médio e traduzir isso em resultados de aprendizagem relevantes e efetivos. O que isso quer dizer? Vamos ter que garantir que todos os meninos e meninas concluam o ensino médio. Hoje o acesso ao nível médio ainda não está garantido. Apenas 59% dos jovens de 19 anos concluem essa escolaridade. Se não tiver essa conclusão, a próxima geração continuará pobre. Só interrompemos a transmissão intergeracional de pobreza quando a menina - a mãe das futuras crianças - conclui o ensino médio.

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