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A cada 41 minutos, uma mulher é agredida no Espírito Santo

Especialistas apontam como se comportam agressores de mulheres

Publicado em 27/01/2018 às 20h24
Marcelo Prest  Maria do Rosário sofreu com o primeiro marido: "Sou quase cega de uma vista por um soco que ele me deu"  . Crédito: Marcelo Prest
Marcelo Prest Maria do Rosário sofreu com o primeiro marido: "Sou quase cega de uma vista por um soco que ele me deu" . Crédito: Marcelo Prest

Eles possuem diferentes idades, níveis de educação e de poder econômico. O fato de os homens agressores e, por vezes, assassinos de mulheres estarem em todos os lugares se reflete no número de vítimas que sofrem com a brutalidade cotidiana. No ano passado, a Polícia Civil registrou 12.771 ocorrências de violência contra mulheres no Estado (incluindo visitas tranquilizadoras), o que significa que, a cada 41 minutos, uma mulher foi agredida. Em 41 casos, a situação atingiu seu ponto extremo: o feminicídio.

Mas a situação real pode ser ainda mais grave. Segundo especialistas, são muitas as mulheres – especialmente as de classes mais altas – que não procuram as delegacias para registrar os abusos, seja por receio ou pela dificuldade de se reconhecerem como vítimas. Apesar de não se restringirem a um único perfil, os criminosos apresentam comportamentos em comum, que são revelados por suas atitudes e pelos relatos das próprias vítimas.

O MACHISMO

O primeiro deles é o machismo, conforme ressalta a titular da Delegacia de Atendimento à Mulher de Cariacica, Michelle Meira. “São homens que tratam as mulheres como um objeto. Elas são obrigadas a obedecer. Um almoço que não é feito já gera problemas. Eles não aceitam que a mulher tenha sua individualidade.”

Para a doutora em psicologia Mirian Beccheri Cortez, a criação dentro de uma cultura machista molda a experiência de vida desses homens, que associam o papel masculino à agressividade, ao controle e à força. Muitos deles já conviveram com a mesma violência que praticam quando mais jovens.

“Eles passam a vida sendo estimulados a não levar desaforo para casa e são educados sexualmente com base em pornografias, muitas delas violentas. Isso influencia o modo como eles enxergam todas as mulheres: esposas, filhas, enteadas, colegas de trabalho”, descreve ela, que pontua: “Homens que cometem violência, em geral, têm capacidade bem menor de autocontrole e de expressão de sentimentos”.

A PROGRESSÃO

Primeiro uma ofensa, depois um empurrão, um tapa e daí por diante. Na maioria dos casos de violência, as consequências mais graves ou até mesmo o assassinato não ocorrem do dia para a noite. “É uma escalada. Quando conversamos com as vítimas, vemos que tudo se inicia com uma violência psicológica, depois moral, depois parte para uma agressão física ou sexual. Pesquisas indicam que é difícil haver uma tentativa de homicídio isolada”, afirma a promotora de Justiça e coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher (Nevid) do Ministério Público Estadual, Claudia Garcia.

Esta é uma realidade com a qual a titular do Distrito Policial de Atendimento à Mulher de Vitória, Juliana Saadeh, lida sempre. “Quanto mais a mulher não reage, mais o homem ganha confiança para aumentar a violência. Por isso, ela deve denunciá-lo o quanto antes. Mesmo que não queira representar contra ele, existem medidas protetivas que podem ajudá-la”, alerta.

A MANIPULAÇÃO

Usar artimanhas para garantir que a mulher não saia do relacionamento é um dos traços mais marcantes dos agressores. De acordo com a secretária de Cidadania e Direitos Humanos de Vitória, Nara Borgo, a maioria das vítimas que buscam o auxílio do Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência da Capital relatam que seus companheiros prometeram mudar reiteradas vezes. “O ato de pedir desculpa se torna mais complexo quando há filhos, pois o marido apela para eles. Ele também tenta minar a autoestima dela.”

Segundo Juliana Saadeh, são essas mesmas promessas que quando não impedem que as mulheres denunciem os abusos por anos, as fazem desistir do processo quando ele já foi iniciado. “A mulher faz a denúncia e depois volta atrás. Em casos de ameaça e de violência psicológica ela tem esse direito e nós suspendemos o inquérito. Isso acontece, pois muitas dependem emocionalmente e também financeiramente deles.”

Claudia Garcia define os agressores como sedutores sociais. “Eles oscilam de comportamento. Ora são violentos, ora são carinhosos, e com isso a própria mulher se culpa pela agressão sofrida. A palavra dela também tem menos credibilidade porque aos olhos da sociedade, muitos deles são bons, não dá para imaginar que sejam violentos em casa”, afirma.

NÃO SÃO DOENTES

Segundo a psiquiatra Lisieux Telles, que é membro da Associação Brasileira Psiquiatria, homens que agridem mulheres não são doentes. “São muito raros os casos de psicopatia (psicopatas geralmente praticam outras violências e já praticaram outros atos ilícitos).”

Por outro lado, são comuns os relatos de agressões após o uso abusivo de álcool e de drogas. Mas Lisieux deixa claro que a dependência química não é a responsável pelo crime. É isso o que reforça Mirian Beccheri: “As substâncias são apenas desinibidoras e não justificam a agressão. No caso da violência contra a mulher, isso se soma a diversos outros gatilhos individuais e culturais”.

A NEGAÇÃO

Ao serem flagrados ou denunciados pelos abusos, a maioria dos homens busca a mesma saída: a negação do crime. “Às vezes eles até choram, dizem que são trabalhadores. Com esse comportamento machista eles sequer percebem sua culpa”, conta Michelle Meira.

Dentro desse contexto, a solução para eles é transferir a culpa para a própria mulher. “O homem vai brigar para tentar justificar sua violência como algo necessário naquele momento. Eles tendem a falar do álcool, da mulher que não obedeceu, que está traindo, usando roupa curta, não cuida das crianças. Existem diversos meios para que esse homem se enxergue como fonte da violência. Terapia e criminalização me parecem essenciais”, aponta Mirian.

ALERTA

Fique atento às características de um relacionamento abusivo para dar um basta.

OS SINAIS QUE A MULHER APRESENTA

1 Quando percebe que faz sempre tudo o que não quer para evitar que seu parceiro saia do controle dele. Deixar de falar ou fazer o que pensa para evitar um problema maior.

2 Depressão: a Organização Mundial de Saúde define a violência contra a mulher como um problema de saúde pública, que pode motivar suicídios.

3 Fobia social: perde-se a vontade de sair de casa, de trabalhar.

4 Transtornos alimentares: comer muito ou deixar de comer.

OS SINAIS QUE O HOMEM APRESENTA

1 Tentativas constantes de impor sua vontade

2 Controle excessivo (dos horários, dos afazeres, das roupas e do celular da parceira).

3 Ciúmes em excesso (principalmente as mulheres mais jovens devem estar atentas. Ciúme excessivo não é sinônimo de afeto).

4 Nem sempre a violência se traduz em agressão física. Ela pode ser moral, psicológica, sexual e patrimonial. Se o homem é agressivo com palavras, faz ameaças ou tenta afetar a autoestima da parceira, ele está sendo abusivo.

Rede de Apoio

A promotora de Justiça Claudia Garcia reforça que o suporte de familiares e amigos é fundamental para que as mulheres se fortaleçam e busquem ajuda. “Ouça sem julgá-la e no momento certo, encaminhe-a aos serviços”, diz.

“Para mim, ele era um demônio”, diz vítima

Por 13 anos, a violência sofrida em casa transformou a vida de Maria do Rosário Souza Gomes Vieira em um tormento. O primeiro marido começou a agredi-la meses após o casamento e seu comportamento tornou-se cada vez pior a ponto de tentar matá-la. Apesar das marcas físicas e das lembranças que ainda carrega, Maria tem hoje, aos 66 anos, aquilo que mais preza: a liberdade. Sua história foi narrada no documentário “As rosas que não se calam – violência doméstica”, feito por estudantes de Jornalismo da Faesa, e agora ela a conta em A GAZETA. “Para mim ele era um demônio”, diz. Confira:

Como começou?

Eu me casei grávida de quatro meses e estava com 15 dias de resguardo da minha filha na primeira vez que ele me bateu. Ele saiu e voltou para dentro de casa sem eu ver. Quando voltou, eu não vi, saí para procurá-lo e quando o encontrei ele me deu um tapa no rosto. Corri para a casa da minha mãe, mas ela disse que, se casei, teria que aguentar. Voltei para casa e só piorou.

Como ele agia?

Ele bebia e me batia, me ameaçava de morte com uma faca. Com 24 anos, eu já tinha quatro filhos porque ele não me deixava tomar anticoncepcional, dizia que eu arrumaria homens na rua. Eu não podia cortar o cabelo (ele media o meu cabelo para saber se eu cortei) e usava roupas tapadas. Um dia pintei as unhas e ele raspou o esmalte com um alicate. Disse que da próxima arrancaria meus dedos. Enquanto eu estava com ele eu nunca pude comprar nada que eu queria no supermercado. Para as pessoas da rua ele era um anjo, mas para mim, era um demônio. Ele sabia que eu não conhecia nada e se aproveitava disso. Ameaçava tirar meus filhos também, sumir com eles.

Há algum episódio mais marcante?

Sou quase cega de uma vista por um soco que ele me deu. De outra vez, quando a gente morava em São Paulo, ele me levou para o mato e só não me matou porque apareceram duas pessoas. Me lembro que uma vez eu levei as roupas dele para passar na casa da vizinha e quando eu voltei ele me deu um tapa tão forte, que eu caí no chão. Quando eu caí, ele começou a me chutar. Na última vez que ele me bateu nós já estávamos separados. O meu filho até deu um tapa nele. A minha filha pediu para ele não me bater e ele deu uma coronhada na cabeça dela.

Como se separou?

Ele foi preso, na cadeia arrumou uma mulher e ficou com ela. Sempre dizia que não me amava, que vivia comigo por pena e por causa dos meninos. Passei por muitas humilhações até da nova mulher dele. Depois ele quis voltar, mas eu não quis. Mas eu só fiquei em paz mesmo quando ele morreu, porque mesmo separados ele me perseguia, me ameaçava. Uma vez eu saí com meus filhos e ele foi lá atrás de mim, voltou me perturbando no ônibus. Hoje eu tenho outro marido que nunca levantou a mão para mim. Eu posso fazer tudo o que eu quiser: unha cabelo, comprar o que eu quero. Não existe sensação melhor do que ser livre, é maravilhoso.

 

PROJETO PARA REEDUCAR HOMENS

A partir deste ano, o Ministério Público estadual (MPES) pretende implantar um novo projeto voltado para a conscientização de homens agressores. De acordo com a coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher (Nevid), Claudia Garcia, a ação já é desenvolvida pelo Ministério Público de São Paulo com bons resultados.

“Em março teremos uma oficina para os promotores de Justiça. Aqui, a Polícia Civil já implantou o projeto Homem que é Homem, que é muito bom, pois o índice de reincidência de homens que vão até o final dele é muito baixo. Mas ele não dá conta de atender um universo muito maior de agressores. Por isso, queremos ampliar”, explica Claudia.

Segundo ela, o objetivo é promover palestras sobre gênero, relacionamento, Lei Maria da Penha e uso de álcool e drogas. “A ideia é levar os homens a refletirem sobre como resolver conflitos sem o uso da violência. Isso é importante porque às vezes ele passa pelo sistema judiciário sem entender o que fez e acaba agredindo novamente a mulher. Essa construção cultural dos relacionamentos íntimos é que precisa ser desfeita”, diz.

Para a psicóloga Mirian Beccheri Cortez, a mudança de conduta masculina é possível. “Desde que haja engajamento desse homem e profissionais capacitados para lidar com a complexidade da violência contra a mulher”, ressalta.

ONDE DENUNCIAR

Ligue 180 (específico para a violência contra a mulher)

Ciodes: 190

Disque-Denúncia: 181

Plantão Especializado da Mulher (PEM): 3323-4045

Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Cariacica: 3136-3118

Deam de Guarapari: 3262-7022

Deam de Serra: 3328-7217 / 3328-2869

Deam de Viana: 3255-1171 / 3255-3095

Deam de Vila Velha: 3388-2481

Deam de Vitória: 3137-9115

Deam de Aracruz: 3256-8186

Deam de Colatina: 3177-7121

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