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"É um novo tipo de relação entre o jornalismo e as comunidades"

Considerado o grande teórico do jornalismo digital, professor da Universidade do Texas analisa mudanças nos jornais e garante: missão continua a mesma, contar histórias baseadas na busca da verdade

Publicado em 26/09/2019 às 16h12
Atualizado em 06/04/2020 às 17h22

Ele é um dos estudiosos mais atentos às transformações digitais pelas quais o jornalismo vem passando nos últimos anos. Definido pelo diário espanhol El País como “o grande teórico do jornalismo digital, o grande guru ibero-americano do advento da internet e homem adiantado ao seu tempo”, Rosental Calmon Alves, de 67 anos, transita com tranquilidade entre o passado e o futuro da comunicação.

Sua trajetória profissional começou em 1968, como repórter dos Diários Associados, no Rio de Janeiro. Pouco depois, trocou o Rio por Vitória e trabalhou na redação de A Gazeta em dois momentos, em 1969 e em 1971. De volta à capital fluminense, passou pelas rádios Tupi e Nacional. Também atuou nas revistas IstoÉ e Veja e, em 1995, comandou o lançamento da primeira versão para a internet de um jornal brasileiro, o JB online.

No ano seguinte, trocou as redações pela sala de aula. Hoje dirige o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, um programa de extensão e capacitação da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, voltado para jornalistas da América Latina e do Caribe. De lá, viaja pelo mundo debatendo a revolução digital que acertou em cheio os jornais e o jornalismo, mudou a forma como as notícias são produzidas e distribuídas, aprofundou o diálogo entre os meios de comunicação e o público, mas também intensificou os discursos de ódio, a polarização política e as fake news.

De lá também concedeu entrevista para esta edição especial de A Gazeta:

A evolução tecnológica trouxe inúmeras formas de interação e possibilidades para conhecermos nossas audiências. Na sua opinião, o que o jornalismo tradicional ganha com as novas possibilidades interativas?

Esta é uma boa pergunta, pois temos visto que o foco das discussões sobre as mudanças tem estado mais sobre o que o jornalismo perde do que sobre o que ganha. Em primeiro lugar, ganha maior audiência. Nunca os jornais chegaram a tanta gente. Nunca tiveram uma audiência tão ativa, tão engajada e nunca tiveram acesso a dados com precisão científica como têm hoje sobre os seus leitores. É um novo mundo, cheio de dificuldades, mas também repleto de oportunidades para um novo tipo de relação entre o jornalismo e as comunidades a que ele serve.

Temos visto, também, que as redes sociais se tornaram um terreno fértil para a desinformação, o radicalismo e a formação de bolhas virtuais, em que a tendência é nos relacionarmos apenas com aqueles que pensam como nós. Quais os riscos desse processo?

Faz uns 30 anos que acompanho a revolução digital e me lembro como, lá atrás, alimentávamos o sonho de que a democratização do acesso à informação, através das novas tecnologias, criaria um mundo melhor, com cidadãos mais bem informados capazes de participar mais ativamente do processo democrático. O que vimos nos últimos anos foi a transformação daquele sonho num pesadelo, através do mau uso ou da manipulação cínica das redes sociais por atores políticos mal-intencionados e por inocentes úteis. Os riscos são enormes, como já vimos em alguns resultados concretos, que vão dos casos de linchamentos incitados pelas redes sociais à exacerbação do populismo inconsequente, a disseminação do discurso de ódio e a polarização. Acredito que estamos numa fase de transição, nas dores do parto de um mundo novo, no qual as coisas vão se ajeitar. As pessoas vão se cansar de mentiras, de informações falsas e desenvolver uma espécie desconfiômetro. Muitos vão descobrir que têm sido idiotas úteis ao repassar notícias falsas ou completamente malucas nas redes sociais ou no WhatsApp. Além disso, creio que haverá regulamentações e mecanismos de controles de abusos nas redes sociais muito mais eficazes que os atuais.

O que muda no jornalismo com a diversidade de plataformas e com o fato de que pessoas comuns também se tornaram produtoras de informação?

Tenho dito há anos que íamos passar da era dos meios de massa para a era da massa de meios, na qual cada um de nós se torna potencialmente um meio de comunicação. Isso já está acontecendo. Pessoa física ou pessoa jurídica, somos todos meios de comunicação, com capacidades que antes eram exclusivas dos meios de massa, como formar audiências e acessar informações que antes estavam fora do nosso alcance. Isso, porém, não significa nem o fim dos meios de massa nem o fim do jornalismo, mas estes precisam se adaptar, se transformar para sobreviver e prosperar neste novo ambiente. Passamos de um jornalismo vertical a um mais horizontal que reconhece e participa ativamente da nova dinâmica comunicacional desta sociedade em rede, onde estamos conectados todo o tempo.

Diante de tantas opções de informação, o jornalismo tradicional ainda pode ser visto como guardião da liberdade de expressão?

Nesta cacofonia criada pelo empoderamento de qualquer pessoa para virar uma espécie de meio de comunicação, o jornalismo tradicional, profissional, baseado em princípios éticos e deontológicos que desenvolvemos ao largo de décadas, passa a ser mais importante que nunca. O jornalismo independente e profissional se torna uma instância verificadora indispensável para o funcionamento da democracia. O jornalismo deve ser não apenas o guardião da liberdade de expressão, mas de todas as liberdades e de todos os direitos que estão assegurados pela Constituição. Além de instância verificadora, o jornalismo é uma instância fiscalizadora indispensável num regime democrático.

De quais valores um jornal relevante em sua comunidade não pode abrir mão?

Um jornal não pode abrir mão de sua independência e do seu compromisso com a busca da verdade, num processo baseado em métodos profissionais e éticos.

Vivemos hoje no Brasil um período de ataques significativos à mídia tradicional por parte de figuras importantes da política nacional. Como acha que o jornalismo pode se defender nesta guerra de informações?

Vivemos aqui nos Estados Unidos um processo similar de ataques ao jornalismo, aos jornalistas e aos meios de comunicação. É fácil imaginar que Donald Trump esteja fazendo escola e encontrando imitadores em outras partes do mundo. Estou de acordo com meu amigo Marty Baron, editor do Washington Post, quando ele diz, “we are not at war, we are at work”, ou seja, mesmo diante dos ataques que recebemos, não estamos em guerra, estamos fazendo nosso trabalho. Em vez de responder às provocações, devemos apegar-nos ao nosso trabalho jornalístico ainda com mais afinco. Devemos continuar em nosso trabalho de investigação, de verificação, de fiscalização e de implacável busca da verdade, para assim servir às nossas comunidades. O Washington Post tem uma lista de umas 12 mil mentiras que o presidente Trump disse nesses dois anos e meio de governo. Essa lista extraordinária é cuidadosamente elaborada todo dia não por que o jornal está em guerra, mas por que o jornal está cumprindo seu papel fiscalizador. Por outro lado, eu penso que o jornalismo tem que ser mais proativo em sua relação com o público para explicar o que faz, como faz, por que faz. O jornalismo exige maior transparência dos outros, mas deve ser também mais transparente. Em meio a esses ataques e à cacofonia da radicalização online, o jornalismo precisa empenhar-se em educar o público sobre seu papel numa sociedade democrática e explicar como funciona.

Diante deste momento político, o senhor acredita ser possível que o Brasil retroceda aos tempos da censura?

O presidente do Brasil fez sua carreira política com base na defesa da ditadura militar e de suas características mais nefastas, como a tortura. Claro que há sempre o perigo de um retrocesso institucional principalmente quando há líderes que usam a democracia para minar a democracia e instaurar regimes autoritários. Nos últimos anos, as instituições têm demonstrado força e mantido a estabilidade do Brasil, mesmo em situações extremas como o impeachment e o maior escândalo de corrupção da nossa história que chegou a estamentos políticos e empresariais de maneira inédita. No início da minha carreira jornalística, em dezembro de 1968, eu participei de uma entrevista com o então senador Mário Martins e mandei para O Jornal, onde era estagiário, uma nota em que ele tentava desfazer a impressão de que os militares poderiam adotar um retrocesso ainda maior, com um novo e radical ato de exceção. “Os militares não vão cutucar o leão com vara curta”, nos disse o senador. Um par de dias depois, saiu o Ato Institucional número 5, instituindo a censura e suspendendo os direitos civis.

Qual o papel do jornalismo diante das fake news?

O jornalismo não pode ter uma atitude passiva diante da praga da desinformação que assola o mundo nestes tempos de nossa adaptação à era digital. Cabe aos jornalistas um papel ativo de verificação sistemática das informações falsas. Para isso os jornalistas precisam de habilidades novas e específicas que têm sido desenvolvidas nos últimos anos, com o crescimento do fact-checking. Além disso, cabe ao jornalismo um papel educador, de explicar às suas comunidades os perigos de se passar adiante qualquer informação sem o mínimo esforço para que os próprios cidadãos confirmem em fontes confiáveis que se trata de algo verdadeiro.

Qual era a missão do jornalismo na década de 1960, quando o senhor começou? O que mudou e o que continua valendo para o jornalismo em 2019?

A principal missão do jornalismo continua sendo a mesma, a de contar histórias baseadas na busca da verdade, que se dá através de métodos e processos profissionais e éticos, da maneira mais objetiva possível. Só que o ambiente comunicacional onde o jornalismo atua mudou e continua mudando, devido ao impacto da revolução digital. Na época em que comecei na profissão, os meios de comunicação tinham um virtual monopólio na capacidade de buscar, processar e entregar informações para audiências de massa. Esse virtual monopólio desapareceu. Agora, os cidadãos, as organizações sociais, empresas, governos, todos têm capacidade de formar suas redes, suas audiências. Isso não afeta a missão do jornalismo, muito pelo contrário. Mas exige que nos adaptemos a esse novo ecossistema para cumprir nossa missão e levar informação veraz, produzida com bases nos mesmos valores éticos e profissionais que sirva como referência e como pilar da sociedade democrática e aberta. O uso das novas tecnologias e o entendimento de como os cidadãos consumem informação nesta nova era são indispensáveis para essa adaptação do jornalismo, que o manterá uma voz relevante e indispensável para as comunidades que ele serve.

Como o senhor se informa diariamente?

Eu começo meu dia lendo uma série de newsletters que recebo por email. São sumários das mais importantes notícias do dia enviadas por jornais tradicionais e meios novos, digitais. Algumas vezes, clico nos links que me levam à informação completa nos sites. Acho que de certa forma, esta leitura substituiu meu hábito matinal de ler o jornal diariamente. Ao longo do dia, recebo alertas de notícias no meu relógio de pulso, navego algumas vezes nos sites noticiosos. À noite, antes de dormir e pegar algum livro, dou uma espiada nos sites. No fim de semana, leio o New York Times em papel. Ainda tenho o hábito de uma leitura de fim de semana mais relaxada, regada de um bom café brasileiro.

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