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Elza Soares: "Essa gripe no Brasil não pode virar uma pneumonia"

Uma das maiores vozes de resistência da música brasileira, Elza Soares lança seu 34º disco e não alivia no discurso

Publicado em 14/09/2019 às 16h11
Atualizado em 15/09/2019 às 06h32
Elza Soares em ensaio fotográfico para o disco "Planeta Fome". Crédito: Marcos Hermes / Divulgação
Elza Soares em ensaio fotográfico para o disco "Planeta Fome". Crédito: Marcos Hermes / Divulgação

Em 1953, Elza Soares, então uma jovem de 21 anos recém-viúva e com filhos para criar, decidiu seguir seu sonho de cantar. Ela se inscreveu no concurso musical do programa “Calouros em Desfile”, comandado por Ari Barroso na Rádio Tupi e, mesmo sem ser levada a sério, fez sua primeira apresentação ao vivo. “De que planeta você veio?”, perguntou o apresentador; “Vim do mesmo planeta que o senhor”, respondeu Elza; “E posso saber de que planeta eu sou?”, indagou Ari e Elza, que não hesitou: “Do Planeta Fome”.

Era o primeiro passo artístico da carreira de um dos maiores nomes da música brasileira e algo que ela carrega até hoje – “Planeta Fome” é o nome do disco lançado por Elza na última sexta (13) nas plataformas digitais (a versão física será lançada no Rock in Rio). Por que a referência?

“Porque o Planeta Fome continua aí, cara. Porque ele nunca saiu de cena. Desde aquela época, o Planeta Fome está entre nós. E hoje não é só fome de comida, é fome de saúde, fome de cultura, fome de amor, de cordialidade”, explica Elza, por telefone, com sua voz característica e muito bom humor. O conceito do disco segue até a última música, “Não Recomendado”, que encerra o trabalho com os versos “Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?”, eternizados na voz de Arnaldo Antunes, dos Titãs.

SUCUMBIR?

A abertura do disco é forte: com sua voz marcante, Elza canta “Eu não vou sucumbir” em “Libertação”, música com o BaianaSystem. Questionada sobre a participação da trupe de Russo Passapusso, Elza devolve a pergunta: “Por que você acha que eles tão no disco?”. “Acredito que por carregarem hoje a bandeira que você (ela se recusa a ser chamada de senhora) levanta há anos, a resistência cultural e a mistura de gêneros da qual você foi pioneira”, respondi, meio tenso, admito, antes de ouvir Elza concordar: “Eu gosto muito dessa mistura deles. Participei de todo o processo, escolhi cada convidado, cada música.”

Em “Planeta Fome” Elza dá sequência à série de discos iniciada com o ótimo “A Mulher do Fim do Mundo”, em 2015, e seguida por “Deus é Mulher”, de 2017, que mantém o nível lá em cima. No novo trabalho ela muda de ares, deixa os produtores da cena independente paulista e abraça a galera da Cidade Maravilhosa. O disco tem produção de Rafael Ramos e convidados como BNegão, em “Blá Blá Blá”, e Rafael Mike, em “Não Tá Mais de Graça”, todos carioquíssimos.

Apesar disso, Elza não gosta de falar em mudança, em troca. “Tá tudo junto, nós estamos todos juntos, Rio, São Paulo... Não tem separação nenhuma. A união faz a força, Rafa, a união faz a força... Não quero saber de separação”, afirma.

RESISTÊNCIA

Elza sofreu com a ditadura militar no Brasil – teve a casa em que morava com Garrincha, no Rio de Janeiro, metralhada por agentes do governo, com ela, o marido e os filhos dentro, e se refugiou na Itália.

“Ah, cara... Como as pessoas podem ter saudade disso? Eu precisei fugir!”, afirma, antes de repetir a visão otimista que já havia dito em entrevista ao jornalista Leonardo Lichote, de “O Globo”: “O Brasil está doente, mas acho que é só uma gripe”, afirma, como havia dito ao colega, mas completa. “Só espero que essa gripe não vire uma pneumonia, né?”

Elza Soares em ensaio fotográfico para o disco "Planeta Fome". Crédito: Marcos Hermes / Divulgação
Elza Soares em ensaio fotográfico para o disco "Planeta Fome". Crédito: Marcos Hermes / Divulgação

Elza não sabe ao certo a idade que tem, uns dizem 82 e outros, 89, mas continua fazendo resistência à sua maneira, com música. “É só ler as letras do disco, né? O que você acha?”. De fato, as letras de “Planeta Fome” são cheias de atitude. “A carne mais barata do mercado não tá mais de graça / O que não valia nada agora vale uma tonelada /A carne mais barata do mercado não tá mais de graça / Não tem bala perdida, tem seu nome, é bala autografada”, diz a letra de “Não Tá Mais de Graça”.

Aos 12 anos, Elza foi obrigada a se casar e a conviver com a violência do marido; aos 13, teve o primeiro filho e, aos 21, se tornou viúva; dois filhos morreram de fome. Mesmo depois de famosa, teve os já citados problemas com a ditadura, além de outro relacionamento abusivo, desta vez com Garrincha, que a agredia em crises de ciúmes embaladas pelo alcoolismo. O único filho do casal morreu em um acidente de carro em 1986, mas Elza, como diz a tal primeira frase de “Planeta Fome”, não sucumbiu. De resistência, ela entende.

 

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