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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

"Viés ideológico", sim. Mas só no outro

Confira a coluna Vitor Vogas deste domingo (04)

Publicado em 03/11/2018 às 20h36
Coluna Vitor Vogas - 04/11/2018. Crédito: Amarildo
Coluna Vitor Vogas - 04/11/2018. Crédito: Amarildo

“Meus heróis morreram de overdose. Meus inimigos estão no poder. Ideologia, eu quero uma pra viver!” Na noite de 22 de setembro, no palco de um shopping de Vila Velha, o célebre refrão de Cazuza foi entoado por Paulo Ricardo, seu contemporâneo no rock nacional. Logo em seguida, o cantor surpreendeu o público promovendo uma enquete improvisada sobre os candidatos preferidos à Presidência: omitiu o nome de Haddad, deixou Bolsonaro por último e chamou-o de “capitão”, arrancando gritos entusiasmados de boa parte da plateia.

O cantor o fez de forma disfarçada, mas naquele momento expressou a sua preferência política. E a ideologia com a qual “quer viver”. Eu sei. Eu estava lá (e aceito ser zoado por isso). Nada errado na manifestação de Paulo Ricardo. É legítimo e é seu direito. A questão é outra.

A sociedade está sendo o tempo todo disputada por ideologias. E a arena máxima da disputa ideológica é exatamente a arena política. O que foi a eleição que acabou de passar em nossas vidas se não uma disputa de projetos ideológicos pela preferência dos eleitores brasileiros?

Entretanto, no caso de Bolsonaro, difundiu-se o senso comum, martelado a todo instante pelo próprio candidato, de que ele fará um governo “sem viés ideológico”. “Viés ideológico” é uma das expressões preferidas do presidente eleito, mas, em sua retórica, só existe nos adversários. Jamais nele e em seus aliados.

É como se o próprio Bolsonaro pudesse ser um invólucro oco; um corpo blindado e impermeável à influência de qualquer ideologia. Na mesma esteira, difundiu-se a ilusão de que o presidente eleito fará um governo não só acima de partidos (suprapartidário), como também acima de ideologias (supra-ideológico).

Acreditar que Bolsonaro não fará um governo ideológico é um erro de compreensão da realidade, vitaminado por doses cavalares de ingenuidade.

Como todo líder político, Bolsonaro possui uma ideologia. É, grosso modo, uma ideologia que toda a imprensa estrangeira tem classificado, corretamente, como sendo de extrema-direita.

No caso dele, porém, trata-se de uma mistura com características muito particulares: um caldo ideológico resultante da combinação de Ustranacionalismo e exaltação de valores patrióticos (Brasil acima de tudo); religiosidade ou “valores cristãos” (Deus acima de todos); militarismo e certo apreço declarado por regimes autoritários (a nossa ditadura militar e a de outras partes do mundo); extremo conservadorismo nos costumes, contrapesado por um recém-incorporado liberalismo extremo na área econômica.

Essa é a ideologia bolsonarista. E fazemos questão de sublinhar: não há nenhum problema, a priori, em se manter essa ideologia. Inclusive, foi com essa ideologia que Bolsonaro, legitimamente, venceu as eleições democráticas realizadas no último domingo. Portanto, foi essa a ideologia que o povo brasileiro escolheu para “viver” e para governar o país. É com ela e para colocá-la em prática que Bolsonaro subirá a rampa do Palácio do Planalto no dia 1º de janeiro. De novo: é legítimo que o faça. Pode se provar positivo para o Brasil. Estranho é pretender que o próximo governo será imune a qualquer tipo de “viés ideológico”.

Enxergar ideologia só no outro e rechaçá-la em si mesmo é, das duas, uma. Por boa-fé, é miopia. Por estratégia consciente, é enganação pura e simples.

Nova política externa também contém ideologia

A título de exemplo, tome-se o departamento das relações exteriores. Durante toda a campanha e após a vitória, o candidato vitorioso repisou que os governos do PT praticaram uma política internacional contaminada por “viés ideológico”, privilegiando alianças indevidas com nações consideradas “amigas” do partido que estava no poder, incluindo algumas ditaduras socialistas, como Cuba e Venezuela, jamais condenadas pelo PT. É verdade e é um fato vexatório.

Mas agora a roda diplomática também girou. E, de novo, só um ingênuo pode acreditar que a política externa a ser adotada pelo próximo governo não terá seu próprio “viés ideológico”. Ora, é natural que seja assim. Em se tratando de relações internacionais, é impossível tirar a ideologia completamente da mesa do chefe do Itamaraty. Não existe, em nenhum país do mundo, política externa 100% livre da ideologia do governo que está no poder.

Os acenos de Bolsonaro e sua equipe nessa área durante e após a campanha indicam isso. Ameaçar retirar o Brasil do Acordo de Paris (uma ideia ruim) tem o seu viés ideológico. A intenção de transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém (uma ideia esdrúxula) tem o seu viés ideológico.

A fala de Paulo Guedes de que o Mercosul não será prioridade no governo Bolsonaro (incluindo, equivocadamente, a Bolívia no rol de integrantes e ignorando a suspensão da Venezuela) tem o seu viés ideológico. De igual modo, a aversão já expressada por Bolsonaro a comercializar com os chineses (“A China está comprando o Brasil”) tem forte viés ideológico. Como o tem a preferência já expressada por ele e por Guedes em estreitar relações comerciais com os Estados Unidos – cujo presidente, Donald Trump, criticou no dia 1º de outubro o tratamento do Brasil às empresas americanas: “Eles cobram de nós o que querem”.

E não é mera coincidência que Bolsonaro seja tão identificado, ideologicamente, por toda a imprensa estrangeira, com o presidente gringo. Nem que ele tenha visitado os Estados Unidos em outubro de 2017, já como pré-candidato à Presidência, dado seus disparos por lá em uma plataforma de tiros e cancelado um debate na prestigiada Universidade George Washington para expor seus planos a políticos, intelectuais e acadêmicos.

Da mesma forma, é evidente o “viés ideológico” na escolha das primeiras viagens internacionais de Bolsonaro como presidente eleito: Estados Unidos, Israel e, como primeiro destino, o Chile.

Não apenas porque o presidente eleito é um admirador confesso da ditadura de Pinochet (1973-1990), que assassinou 3 mil pessoas no país vizinho – à “Veja”, em 1998, disse que “Pinochet deveria ter matado mais gente”. Mas sobretudo porque o presidente chileno, Sebastián Piñera, um empresário liberal, apoiou sua candidatura à Presidência (algo muito raro por parte de um chefe de outra nação). De novo: tudo legítimo. Jogo jogado. Estranho é negar o viés ideológico desses gestos, declarações e decisões.

Mas os exemplos se multiplicam também no quintal de casa. Pensar em incorporar o Ministério do Meio Ambiente ao da Agricultura não tem viés ideológico? E quanto a querer acabar com o ativismo e com o “coitadismo” no Brasil? E classificar movimentos sociais como terroristas?

E a propósito, o que eram o MBL, o Vem pra Rua e todos os movimentos que engrossaram o “Fora, Dilma” se não ativistas políticos, imbuídos de uma legítima preferência ideológica?

Por acaso também eram terroristas ou, também neste caso, o “ativismo” só está no outro?

Cassetete ideológico

 

Atualmente, a impressão que dá é que até a repressão a manifestações de rua pode adquirir “viés ideológico”. Na semana passada, causou espanto a manifestação de um policial militar capixaba em uma rede social. O cabo publicou uma foto do próprio cassetete, onde escreveu a palavra “resistência” – muito usada por cidadãos que não apoiam o presidente eleito. Ao lado, publicou um texto aberto assim: “Resistência contra uma democracia não é resistência. É vandalismo. É criminoso”.

Direito à manifestação

 

É preciso explicar para o bravo e valoroso agente de segurança dos cidadãos capixabas (de todos os cidadãos) que não apoiar determinado governante ou protestar contra o seu governo não é o mesmo que protestar contra “uma democracia”. Na verdade, é a própria democracia que garante a todos esse direito. Ou por acaso os manifestantes que, há dois anos, foram às ruas legitimamemente e bateram panela no “Fora, Dilma” estavam “resistindo a uma democracia”?

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