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O PT parou de ouvir a voz das "quebradas"

Confira a coluna Vitor Vogas deste sábado (03)

Publicado em 02/11/2018 às 20h56

Nem Lula nem o PT deram ouvidos aos sábios conselhos do ex-presidente do Uruguai José Pepe Mujica. Em março deste ano, ao lado de Lula, Mujica cobrou que a esquerda “cuide enormemente” da conduta dos seus líderes, que devem adotar um estilo de vida “do povo”, e criticou a centralização em uma figura única. Agora, após ignorar o hermano, o PT precisaria ouvir as palavras do Mano para se reconstruir.

Em um dos últimos comícios da campanha de Fernando Haddad, no último dia 23, no Rio de Janeiro, o rapper Mano Brown gerou controvérsia ao sair do script. Destoando do clima de festa (aliás, reclamando da festa) e possivelmente contrariando quem o escalou para falar, o MC paulista cobrou exatamente que o PT volte a “falar a língua do povo”. Com suas próprias palavras, fez eco àquelas de Mujica em março: “Há que se construir o partido”.

“Eu não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho (...) se transformaram em monstros. Eu não posso acreditar nisso. Essas pessoas não são tão más assim. Se em algum momento a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço. Porque a comunicação é a alma. Se não está conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo. Falar bem do PT para a torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não tá aqui que precisa ser conquistada, ou a gente vai cair no precipício.”

Já sob vaias de boa parte da “torcida” petista, mas mantendo-se inabalado, Brown arrematou: “Não gosto do clima de festa. O que mata a gente é a cegueira e o fanatismo. Deixou de entender o povão, já era. Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo tem que saber o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber.”

O “povo” ou o “povão” a que o rapper se referiu constitui-se, principalmente, das famílias de baixa renda da periferia dos centros urbanos, a “quebrada” dos Racionais MC’s. Foi exatamente nessas regiões que o PT surgiu, como um partido originalmente urbano, enraizado nas massas de operários das metrópoles: aqueles cidadãos sofridos e mal remunerados, que trabalham no centro, mas moram na periferia.

Faz tempo que o PT deixou de falar a língua desse povo. São, em sua maioria, homens e mulheres religiosos e conservadores, que não dão lá grande valor nem apoio a pautas identitárias e ligadas à defesa de direitos das minorias, as quais evidentemente são importantes, mas não dialogam diretamente com essas pessoas. Assim como outros partidos ainda mais à esquerda, o PT ficou muito vinculado a bandeiras com as quais esses eleitores se identificam muito pouco.

São homens e mulheres que dependem fundamentalmente do acesso aos serviços públicos, prestados pelo Estado. Como tais serviços normalmente são de baixa qualidade, ao lado de uma grande rejeição à classe política em geral, os usuários desses serviços (ainda que sejam estes prestados pela prefeitura ou pelo governo estadual) também canalizaram sua revolta na direção do PT. Afinal, é o partido que comandou o país por quase 14 dos últimos 16 anos.

Em paralelo, como o Estado não chega a essas pessoas como deveria, esses cidadãos passaram a valorizar muito mais alguns princípios considerados “de direita”, como o liberalismo e o empreendedorismo (mais ainda em um quadro de desemprego agudo e escassez de vagas formais de trabalho).

"GUINADA À DIREITA"

Essa “guinada à direita” dos eleitores com tal perfil sociodemográfico já havia sido profundamente manifestada na vitória arrasadora de Doria sobre Haddad, em primeiro turno, na eleição à Prefeitura de São Paulo em 2016. Na ocasião, o empresário tucano e líder mais “à direita” dentro do PSDB derrotou o candidato petista até em bairros de baixa renda da periferia paulistana, tradicional reduto do PT. Está certo que Doria fez um mandato curtíssimo e medíocre, mas o que vale aqui é a mudança de expectativa da população. O PT não compreendeu o recado das urnas dois anos atrás. Será que compreenderá agora?

Em entrevista no dia seguinte ao discurso de Brown, Haddad concordou com ele: “O que ele falou é a pura verdade. A gente tem que se reconectar com a periferia, com a dor das pessoas que estão sofrendo”.

Em seu primeiro pronunciamento após a confirmação da derrota, no último domingo, disse o ex-prefeito de São Paulo: “Nós temos que fazer uma profissão de fé e que nós vamos continuar a nossa caminhada, conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, nos reconectando com os pobres deste país para retecer um programa de nação que há de sensibilizar mentes e corações deste país”.

Veremos se essa reconexão sairá do discurso. Se não quiser receber um “rip” (“rest in peace”, ou seja, “descanse em paz”), o PT precisa ouvir a voz do rap.

CENA POLÍTICA

Ao apresentar o delegado federal aposentado Álvaro Duboc como seu futuro secretário de Planejamento, o governador eleito, Renato Casagrande (PSB), respondeu por que não o escalou para a Secretaria de Segurança, como o mercado político especulava. Casagrande deu uma risada. “Olha, eu sempre brinco com ele que a área de Segurança não é fácil não. Então estou salvando ele da área de Segurança...”

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