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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

O elogio do vira-lata

À espera do hexa, estamos nós de novo a acompanhar a "pátria de chuteiras", mas o complexo de vira-latas para além das quatro linhas não nos deixou

Publicado em 16/06/2018 às 20h02

 Letícia Gonçalves (interina)

Às vésperas da Copa de 1958, Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-latas” para se referir ao pessimismo com que a Seleção partia para a Suécia. “Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face de resto do mundo. Isso em todos os setores e, sobretudo, no futebol”, escreveu o cronista.

Depois disso, veio o primeiro título mundial, justamente na Suécia. À espera do hexa, estamos nós de novo a acompanhar a “pátria de chuteiras”, mas o complexo de vira-latas para além das quatro linhas não nos deixou. O 7 a 1 de 2014 também não ajudou.

“O que há de errado em ser vira-lata?”. É essa a pergunta que se faz o economista e filósofo Eduardo Giannetti no livro “O elogio do vira-lata e outros ensaios”. “Não há nada de errado. O verdadeiro complexo de vira-lata é a ideia de que há algo errado em ser vira-lata. É disso que precisamos nos livrar”, responde ele mesmo à coluna.

Giannetti lembra que a aura pejorativa do “vira-latismo” remonta a tempos anteriores à existência do próprio termo, à chegada dos portugueses ao que viria a ser o Brasil, e ao sentimento de inferioridade dos nascidos na Terra de Santa Cruz. Muito mais que o local do nascimento, no entanto, essa ideia de inferioridade estava ligada à miscigenação, que é o âmago do vira-lata, “sem raça definida”, e como se isso fosse algo ruim. Parece uma concepção racista e, subtextualmente, é.

O economista defende que deveríamos ter, na verdade, orgulho da condição de vira-lata enquanto símbolo da mistura étnica e cultural, mas sem resvalar para o mito da democracia racial, que prega que vivemos, hoje, em um país livre do racismo.

A partir do entusiasmo nacional “vira-latista”, poderíamos pensar em novas formas de desenvolvimento econômico e social, sem nos tornarmos “cópias malfeitas” do que deu certo nos países ricos, mas aqui, não.

Não quer dizer que estejamos, o tempo todo, cabisbaixos a lamentar nossa inferioridade, ou subalternidade, ou a dizer “só no Brasil mesmo”, ou “num país sério isso não aconteceria”. Houve momentos em que estivemos no exato oposto. “No período recente, houve três surtos de otimismo: o desenvolvimentismo juscelinista, depois tivemos o período de ufanismo durante o regime militar, com o milagre econômico, e, por fim, tivemos no final do segundo mandato do Lula um período em que o Brasil parecia destinado à glória, a um sucesso sem limites. O próprio Lula chegou a declarar que havíamos jogado fora definitivamente o complexo de vira-latas”, lembra Giannetti.

Não foi daquela vez. “Esses três momentos revelaram que tinham bases muito frágeis. Precisamos de bases sólidas de educação, saúde, saneamento e autoconfiança justificada para termos um país que sonhamos. Isso não vai ser conquistado com pré-sal, com surtos de crédito, com milagres econômicos, e sim com ensino básico de qualidade e oportunidades para todos”, avalia o economista.

“Precisamos de um modelo de desenvolvimento menos levado ao consumismo e capaz de celebrar a natureza humana, algo que o brasileiro faz muito bem”, diz.

É difícil, crer, no entanto, na atual conjuntura, mesmo com a distração proporcionada pela Copa do Mundo, nesse Brasil de idílico futuro. E quando se pensa a quem caberia fazer tais transformações, fica mais difícil ainda.

“Não podemos confundir o circunstancial de uma conjuntura sombria como a nossa, hoje, com o permanente da cultura, que é nossa essência. A vantagem de ter uma certa idade, como é o meu caso, é que eu já vi o Brasil cair e se reerguer muitas vezes na minha vida. Não tenho dúvida que não será diferente dessa vez. O que espero é que nós tenhamos adquirido uma certa maturidade para não incorrer novamente em momentos de euforia que subitamente se revertem em situações de profunda amargura e descrença em relação ao futuro”, pontua Giannetti.

A colunista (interina), que tem menos idade que o economista e talvez menos esperança, segue descrente. E Giannetti retruca, aos risos: “Mas não podemos perder a esperança. Dante escreveu, em A Divina Comédia, que nos portões do inferno estava escrito: ‘abandonai toda esperança vós que entrais’. A falta de esperança é o que prenuncia o inferno”.

ENTREVISTA

Além de questões filosóficas sobre a identidade nacional, o economista Eduardo Giannetti também acompanha de perto os caminhos e descaminhos da política econômica brasileira e até se aventura na política propriamente dita.

O senhor foi consultor da ex-senadora Marina Silva na campanha de 2014. E agora? Tem conversado com algum pré-candidato à Presidência da República e tratado de questões mais palpáveis?

Estou colaborando para o programa de governo da Marina. Evidentemente que um programa tem que tratar de questões relevantes para a vida da população, como emprego, segurança e saúde. O futuro do Brasil não vai ser decidido em reunião do Copom, nos pregões da Bolsa ou nas profundezas do pré-sal e sim nas salas de aula. O ensino fundamental de qualidade é o grande desafio civilizatório do Brasil.

Quem assumir a Presidência da República em 2019, a partir do cenário que temos hoje, vai conseguir atuar de forma relevante nessas áreas sensíveis?

Esses valores devem presidir estratégias, a curto e a longo prazo. É claro que tem questões prementes ligadas ao quadro fiscal brasileiro que terão que ser equacionadas.

Muito se fala em privilégios, relacionados a corporações públicas e privadas. Como equacionar isso? Parece ser também parte da cultura brasileira isso de querer beneficiar a uns e a outros, mas não a todos.

Sem dúvida. E a Operação Lava Jato tem o mérito de ter escancarado a deformação patrimonialista do Estado brasileiro, que é essa profunda promiscuidade entre o que é público e o que é privado.

Talvez isso até contribua com o complexo de vira-latas porque, a partir dessas revelações da Lava Jato, há quem diga que o Brasil é assim mesmo, que sempre foi assim e sempre será.

Não podemos descambar para o fatalismo, mas também não podemos ir para o voluntarismo, de imaginar que um ato de vontade do governante vai mudar o país da noite para o dia.

Esse é outro traço da cultura brasileira, o personalismo.

Isso tem um lado bom, que é ter relações densas de afetividade, mas se torna um problema enorme quando se transpõe para a vida pública, que termina naquele lema da Velha República: ‘para os amigos tudo, para os inimigos, a lei’.

Não dá para aceitar um Estado que arrecada 34% da renda e gasta 6% a mais do que arrecada. E metade dos domicílios não tem nem coleta de esgoto. Tem alguma coisa muito errada nas finanças. Como drenar 40% da renda nacional e não entregar minimamente políticas públicas? Esse é o tema central da campanha. Temos que colocar o governo a serviço da cidadania e não o contrário.

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