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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Marina sobe o tom contra PT e Bolsonaro

A candidata da Rede à Presidência da República não poupou críticas a ninguém em sua vinda ao Espírito Santo

Publicado em 15/09/2018 às 21h15
Marina Silva. Crédito: Amarildo
Marina Silva. Crédito: Amarildo

Uma Marina Silva diferente, mais afiada, foi a que veio ao Espírito Santo em campanha no dia de ontem. A candidata da Rede à Presidência da República não poupou críticas a ninguém: nem a Jair Bolsonaro, nem ao PSDB, nem ao PT, nem a Dilma... nem a Lula e aos “amigos do rei”. Em entrevista à coluna e à Rádio CBN Vitória, ela chegou a citar o fascismo e o stalinismo para analisar, respectivamente, as posturas de Bolsonaro e do PT.

Para a candidata, assim como os fascistas, Bolsonaro propõe-se governar só “para os mais fortes e os mais poderosos”. Enquanto isso, avalia ela, o partido de Lula tem procurado não apenas reescrever a História – como fazia o regime stalinista na União Soviética –, mas apagá-la completamente. É uma alusão ao que Marina classifica como esforço por parte do PT em jogar o governo Dilma/Temer para um “buraco negro”, como se só tivesse existido o governo Lula (só a parte positiva) e dali tivéssemos saltado diretamente para 2018.

Essa narrativa, segundo ela, não poderá mais ser mantida, agora que as eleições começaram para valer – com o fim da farsa petista de que Lula seria o candidato. Para a redista, agora que Fernando Haddad entrou oficialmente no páreo como substituto de Lula, o ex-prefeito de São Paulo terá a obrigação de dar muitas explicações para os brasileiros.

“O candidato do PT foi blindado durante esse tempo todo de explicar por que nos governos Dilma/Temer o Brasil foi perdendo tudo de bom que havia no governo Lula e aprofundando tudo de ruim que lá também existia, a ponto de entregarem o país agora incomparavelmente pior do que encontraram. E o candidato do PT agora vai ter que se explicar, da mesma forma que o candidato do PSDB tem que explicar por que agora é ele quem está com os aliados de Dilma sobre o seu palanque”, afirmou a ex-senadora, em referência ao fato de os partidos do “centrão”, que apoiaram o governo Dilma, agora fazerem parte da coligação de Geraldo Alckmin (PSDB).

Segundo Marina, essas explicações devidas ao povo brasileiro serão cobradas de Haddad por ela própria na campanha.

“Com certeza. Independentemente de quem fosse o candidato, o PT é obrigado a explicar à sociedade o que aconteceu com o país do pleno emprego que agora tem 13 milhões de desempregados. O que aconteceu com o discurso da ética e combate à corrupção para eles terem desviado, para os amigos do rei, dinheiro público que poderia ser usado para saúde, educação e segurança pública? O PT tem que explicar. E tem que explicar também por que eles estão colocando num buraco negro o governo da Dilma e do Temer. É como se tivesse terminado o governo Lula e pulado para 2018. Se eles não reconhecem nenhum dos erros, nada, não teve problema nenhum? Não existiu o governo da Dilma? Eu já vi muita gente no stalinismo reescrevendo a História. Agora, apagando completamente a História é a primeira vez. Eles têm que explicar o governo Dilma/Temer.”

Filiada ao PT de 1986 a 2009 e ministra do Meio Ambiente de 2003 a 2008 no governo Lula, Marina parece enfim ter se livrado inteiramente da tutela política e de certo bloqueio psicológico que a impedia de fazer críticas frontais ao ex-presidente e ex-chefe no governo. Questionado pela coluna se trata Lula como corrupto, Marina respondeu: “Os autos da Lava Jato dizem que ele paga um preço pelos erros e crimes que ele e seu partido cometeram”.

A ex-presidente Dilma também não passou incólume: “As críticas que eu faço não são a pessoas. São críticas políticas, com base numa visão de política de quem não faz qualquer coisa para ganhar uma eleição. Diferentemente da Dilma, que disse que juntava-se até com o diabo para ganhar, eu não quero me juntar com o rabudo. Então vou fazer uma disputa limpa, sem fazer a campanha do ódio”.

"BOLSONARO É UM RISCO EM MUITOS NÍVEIS"

Se de um lado Marina condenou o PT pelos desvios éticos e pela falta de autocrítica, do outro a candidata criticou duramente a chapa de extrema-direita Bolsonaro/Mourão em razão da “política do ódio” disseminada por ambos, das propostas da dupla na área de segurança pública – na linha “violência se combate com mais violência” – e de uma série de ideias, às vezes mal disfarçadas, às vezes realmente assumidas, que revelam o desejo de retorno a práticas próprias de um governo totalitário.

A última delas foi a ideia declarada pelo general Hamilton Mourão, em ato de campanha no Paraná protagonizado por ele na última semana, de que o próximo governo crie uma nova Assembleia Constituinte, formada por “cidadãos notáveis”, não eleitos pelo povo – e que seriam escolhidos, é claro, pelo próximo presidente. Para Marina, trata-se, basicamente, de um eufemismo para golpe.

“Uma Constituinte feita sem pessoas eleitas pelo povo é golpe. Numa democracia, a Constituição é feita por mandatos escolhidos para fazer uma Constituinte. Os saudosistas da ditadura militar podem inventar todo tipo de ilusionismo para tentar enganar o povo. Mas quem passou o trauma da ditadura não vai se enganar.”

Marina classifica Bolsonaro como um “risco em muitos níveis”, não só a princípios democráticos, mas à concepção de que é preciso governar para todos, inclusive – e principalmente – para os mais fracos e que mais necessitam do Estado.

“Ele é um saudosista da ditadura militar e representa um risco à defesa dos direitos humanos, ao combate ao preconceito. É um risco em muitos níveis. Eu nunca vi alguém dizer que vai governar para ser contra os mais fracos. O Bolsonaro diz que, se for eleito, não vai se criar mais um centímetro de terra indígena. Eu nunca vi isso. Eu sou uma mulher de fé e fico pensando. O livro de Provérbios diz: ‘Abre a tua boca e julga retamente. Abre a tua boca a favor dos pobres e dos necessitados’. Eu nunca vi alguém se colocar para ser presidente da República dizendo que vai governar para os que podem, para os que têm dinheiro, para os que são fortes. Isso não existe na História. Até mesmo os que vão fazer isso dizem outra coisa. Escamoteiam a verdadeira intenção.”

Quanto à política de Bolsonaro a favor da liberação total do porte de armas de fogo – baseada na ideia de que, portando armas, a população civil estará mais segura –, Marina entende que ela foi desmoralizada pelo próprio atentado sofrido pelo concorrente durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG).

“A população já está descobrindo que a política do ódio não leva a lugar nenhum. Que a visão de segurança que acha que vai defender a vida das pessoas com uma arma não vai a lugar nenhum. E não vai a lugar nenhum porque foi desmoralizada num ato. O candidato Bolsonaro, que diz que para se proteger você tem que ter uma arma e não uma política pública onde o Estado é que defende a sua vida, a sua casa e a sua propriedade, não conseguiu defender a própria vida. Graças a Deus o homem com a faca não estava com uma arma de fogo, que o Bolsonaro advoga que esteja na mão de todo mundo. Eu espero que a sociedade brasileira abra os olhos, principalmente as mulheres.”

Marina acredita que os brasileiros se veem diante de uma decisão crucial a tomar, não só de caráter político, mas também moral, ético a “até espiritual”.

“A população está dizendo que agora nós vamos cultivar uma prática política em que valores como respeito, amor ao próximo, solidariedade, nada disso vale? Que país é esse? Como é que a gente vai deixar que alguém diga que estamos construindo alguma coisa ensinando uma criança a apontar uma arma, ao invés de fazer um gesto de amor com um coraçãozinho na mão? Essa é uma escolha que a população brasileira tem que fazer. Isso é uma escolha mais do que política. Isso é uma escolha moral, é uma escolha ética. E, para alguns, é uma escolha até espiritual. Estão querendo voltar ao ‘olho por olho, dente por dente’. Isso já foi revogado pelo Novo Testamento.”

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