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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

E agora, José Renato Casagrande?

Como deixou bem claro neste domingo (07) o governador eleito em sua primeira entrevista após a vitória nas urnas, Casagrande, em seu retorno ao governo estadual, não foi convidado para nenhum banquete político, muito menos econômico

Publicado em 08/10/2018 às 00h10

“Não me convidaram para essa festa pobre...” Assim cantava Cazuza nos idos dos anos 80, década em que José Renato Casagrande começou a militar na política e no PSB, sendo eleito para o seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa. Como deixou bem claro neste domingo (07) o governador eleito em sua primeira entrevista após a vitória nas urnas, Casagrande, em seu retorno ao governo estadual, não foi convidado para nenhum banquete político, muito menos econômico.

Ao contrário, Casagrande foi, sim, convidado para uma festa paupérrima na economia e na política nacionais. Ou, como ele mesmo disse ontem: “Ninguém me convidou para um banquete. Eu fui convidado para carregar lata d’água, morro acima, em dia de chuva”. Traduzindo, o socialista volta ao governo ciente de que os próximos anos serão duros: qualquer que seja o vencedor do 2º turno presidencial, o país não há de ter estabilidade política. E sem esta não há como pensar em estabilidade econômica nem em sonhar em tirar o país tão cedo da crise.

No entanto, independentemente de “fatores externos” que ele não controlará, há questões que só dependem de Casagrande. Calejado por um governo e uma traumática derrota em 2014, ele teve quatro anos para fazer a necessária autocrítica, avaliar seus erros, examiná-los e aprender com eles para não repeti-los agora.

Um dos maiores desses erros foi o excesso de indicações políticas. Casagrande foi muito criticado, até por alguns aliados, por ter governado com um núcleo muito restrito formado só por companheiros do PSB e porque tinha muitos quadros do partido espalhados pelo governo. Só os socialistas ocupavam as posições estratégicas na equipe. Agora, mesmo com uma coligação formada por 18 siglas, ele escolheu como vice outra correligionária, a ex-vereadora de Cariacica Jacqueline Moraes: um sinal de alerta para os capixabas.

A primeira prova de que Casagrande quer mesmo fazer um governo melhor que o primeiro (e precisa mesmo fazer) tem que ser dada a partir de hoje, com o começo da escalação da equipe. Na vida, uma “segunda chance” é algo raro. Agora que os capixabas a concederam a Casagrande, ele precisa priorizar critérios técnicos na formação do governo desta vez.

Equipe de Casagrande

Agora que Casagrande está eleito, a bolsa de apostas políticas já começa a fervilhar sobre os aliados e aliadas que formarão sua equipe de transição e de governo. Nomes certos: o secretário especial do PSB estadual, Tyago Hoffmann (que foi chefe da Casa Civil no governo passado de Casagrande), e o atual secretário da Fazenda de Vitória, Davi Diniz (PPS). Ele chegou a ser chefe do Idaf e secretário de Planejamento no primeiro governo de Casagrande e foi praticamente “indicado” pelo ex-governador para compor a equipe de Luciano Rezende (PPS) em Vitória.

Lenise é aposta

Outro nome considerado certo por aliados no entorno de Casagrande é o de Lenise Loureiro (PPS). Braço direito de Luciano na Prefeitura de Vitória, ela não se elegeu para a Câmara Federal. Com perfil muito técnico, tem longo currículo na administração pública. É certo que Casagrande a convidará para alguma função de destaque, mas ficam duas dúvidas: 1. Para qual função? (Alguns falam em Secretaria Estadual de Recursos Humanos) 2. Luciano abrirá mão de Lenise?

Camata também

Também derrotado na eleição a deputado federal, o ex-secretário-geral da ONG Transparência Capixaba Edmar Camata é outra aposta forte para integrar o governo de Casagrande. Ele também é do PSB.

Vencedor de bastidor

Luciano apareceu muito pouco na campanha, inclusive na de seus correligionários, mas desponta como um dos vencedores dessa eleição sem ter concorrido a nenhum cargo. Ele não assistiu à vitória de Lenise, mas o PPS elegeu outro aliado importante do prefeito, Fabrício Gandini, para a Assembleia. O partido do prefeito também elegeu Da Vitória para a Câmara Federal e Marcos do Val para o Senado. Há muitos anos o PPS do Espírito Santo não tinha representante no Congresso.

2020 é logo aí

Gandini, aliás, consolida-se como aposta para a sucessão de Luciano em 2020.

Sobe mais um degrau, já de olho no próximo

Por falar nisso, quem aumenta (e muito) o seu capital político é o deputado estadual Amaro Neto (PRB), que quebrou o recorde histórico de votação de um candidato a deputado federal no Estado. Amaro alcançou mais da metade dos votos do segundo mais votado individualmente. Também entra, virtualmente, na briga em Vitória daqui a dois anos. Como em 2016, poderá se candidatar a prefeito sem abrir mão do mandato parlamentar.

Arrependimento 1

A propósito, com essa votação e a busca evidenciada pelas urnas por renovação total no Senado, Amaro deve estar muito arrependido de não ter sido candidato a senador, como gostaria inicialmente.

Arrependimento 2

O mesmo vale para Sergio Majeski (PSB), reeleito na Assembleia Legislativa com a maior votação individual. Tivesse mantido a candidatura ao Senado...

Brita no sapato?

A propósito, eleito pelo PSDB, pilar da base de Hartung, em 2014, Majeski se estabeleceu como principal opositor do atual governo na Assembleia. E na próxima legislatura, agora eleito pelo partido do próprio Casagrande? O governador eleito já deve estar coçando os cabelos ruivos. Ou os fios brancos laterais.

Surpresa

Maior surpresa na eleição à Câmara, Rigoni (PSB) fez campanha exitosa fundada em dois eixos estratégicos: o discurso da renovação política e o da superação pessoal. Deficiente visual desde os 15 anos, ele é mestrando em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford (EUA), uma das universidades mais prestigiadas do mundo.

Bancada das Esposas

Na Câmara, três dos dez membros eleitos pelo ES são mulheres casadas com políticos experientes. Também ajudada pela onda bolsonarista, a novata Soraya Manato (PSL) trocará de lugar com Carlos Manato. Reeleita, Norma Ayub (DEM) é esposa de Theodorico Ferraço (DEM). Já Lauriete (PR), mulher de Magno Malta (PR), retorna à Câmara. Fez mandato discretíssimo quando esteve lá, de 2011 a 2014. Quem realmente tocará o mandato?

“Partido Bolsonaro”

Com quatro eleitos, o PSL foi a sigla que elegeu a maior bancada na Assembleia Legislativa. Agora vamos combinar: PSL é só partido de aluguel. Na prática, é o PJB (“Partido Jair Bolsonaro”), ou PAPT (“Partido Anti-PT”).

Iriny Crusoé

Em uma Assembleia que receberá muitas novidades, a veterana Iriny Lopes será voz solitária na bancada do PT. Caberá à experiente petista exercer, isoladamente, a defesa das bandeiras do partido (e a do próprio PT) no plenário, em uma Assembleia povoada por bolsonaristas.

Nem ilha

Já o PSOL segue na sua sina de jamais ter conseguido eleger um só deputado estadual no espírito Santo.

Bancada da farda

Dos dez deputados estaduais campeões de voto, quatro são oriundos de forças policiais: dois são delegados da Polícia Civil: Lorenzo Pazolini (PRP) e Danilo Bahiense (PSL). Outros dois vêm da Polícia Militar: Capitão Assumção (PSL) e Coronel Alexandre Quintino (PSL).

Policiais na Assembleia

Os dois últimos, inclusive, chegaram a ser investigados por participação no movimento grevista da PMES em fevereiro de 2017. Tende, assim, a ser forte a pressão sobre Casagrande por revisão dos inquéritos administrativos contra participantes da greve. No 1º semestre deste ano, só para fazer média, 29 dos 30 deputados aprovaram indicação sugerindo ao governador Paulo Hartung (MDB que mandasse para a Casa uma Lei Estadual da Anistia.

O verdadeiro suicida

No início da campanha, Manato chamou a si mesmo de “kamikaze de Bolsonaro”. Mas quem foi para uma estratégia realmente suicida foi o outro grande aliado de Bolsonaro, no Espírito Santo, o senador Magno Malta (PR). Talvez por excesso de autoconfiança, mal parou no Espírito Santo durante o 1º turno, enquanto percorria o país pedindo votos para o presidenciável. Sofreu uma derrota surpreendente e retumbante nas urnas. As urnas capixabas.

Mas muita calma

Magno de ingênuo não tem nada. Não esconde que está “pensando grande”, lá na frente. Pode ter perdido por um lado, mas vir a ganhar muito mais por outro. Então sim: pode ter sacrificado a reeleição ao Senado em benefício de algo maior se Bolsonaro se eleger Presidente.

Magno quer ser ministro

Prova das ambições de Magno é que ele próprio já afirmou à coluna no fim de agosto que, com Bolsonaro eleito, ele se vê ocupando um ministério: da Defesa, da Segurança Pública ou até das Relações Exteriores. Na mesma entrevista, disse que também poderia ser presidente do Senado. Bem, agora não mais...

Portanto...

A tendência é que Magno mergulhe ainda mais de corpo e alma na campanha do capitão reformado no 2º turno. Até porque agora a eleição do aliado também virou uma questão de sobrevivência política para ele mesmo nos próximos anos.

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