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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

Brincar, até com o celular, é bom para manter a mente sã

O brincar precisa ser estudado como um tema em si mesmo. É coisa séria de infinitas funções

Publicado em 03/06/2019 às 16h55
Brincadeira de celular. Crédito: Divulgação
Brincadeira de celular. Crédito: Divulgação

O psicanalista inglês Donald Winnicott definia psicoterapia como o lugar onde duas pessoas brincam juntas. Aí encontram-se as áreas inconscientes do paciente e do terapeuta. O brincar, respeitável público, é coisa séria, indispensável para o desenvolvimento de uma mente sã.

Brincando opera-se a magia da transformação imaginária de um objeto em outros. Essa mágica está no conceito de Objeto de Transicional, do qual já lhes falei meus queridos e resistentes leitores. A superposição das duas áreas do brincar a do terapeuta atua no desenvolvimento da criatividade.

Não sei se é só inveja da minha parte. Ao mesmo tempo em que os brinquedos eletrônicos e suas mágicas operatórias fascinam, me preocupa a falta de espaço criativo transmutado em coisas como, por exemplo, “rolimãs”. Não são apenas “rolimãs”, mas representações de parte do mundo interno no brincar.

Para Winnicott, qualquer processo psicoterápico traz com dispêndios e manhas o transitar de um espaço onde não é possível criar para outro espaço onde isso é possível. A capacidade de inventar o mundo à própria maneira é a garantia da segurança e do domínio sobre o viver e ser. As formações saudáveis são necessariamente simbólicas e isso é uma maneira sadia e plena de viver. Milner relaciona o brincar das crianças à capacidade de concentração dos adultos.

Os robôs que invadem os berços com suas mágicas espetaculares estão longe de capacitar o brincar criativo e, portanto, a identificação dos objetos que devem ser criados a cada momento. Criar de dentro para fora os objetos de relação é parte de um processo da capacidade de relacionar-se com o outro de forma estética. Muitas crianças – e até adultos – costumam dar nomes próprios aos brinquedos ou animais de estimação. As coisas criadas com as próprias mãos são necessariamente prolongamentos “vivos” de quem cria.

No seio de alguns conceitos castradores dentro das teses que tentam compreender a alma humana, apareceram em demasia o brincar relacionado à masturbação e às variadas experiências sensuais. Embora tais fenômenos do crescimento do ser estejam relacionados com a fantasia, não são suficientes. O brincar precisa ser estudado como um tema em si mesmo, de infinitas ampliações. É coisa séria de infinitas funções.

Quem sabe o mesmo não se aplique aos telefones celulares e suas magias, as engenhocas que nos dominam, inclusive telefonam.

O desprezado fixo estando em casa é uma segurança nestes tempos em que o fetiche dos sedutores celulares tornou-se objeto de desejo e violência de quem não pode comprá-los.

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