Dom, 23 de Janeiro de 2022
Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

O mal-estar causado pela visita de Beatrix von Storch ao Brasil

Paira um mal-estar enorme sobre a visita não oficial e o discurso ultraconservador, não só pelo discurso atual da parlamentar alemã, mas por suas reiteradas manifestações xenófobas, homofóbicas e preconceituosas na Alemanha

Publicado em 28/07/2021 às 02h00
 Jair Bolsonaro ao lado da deputada Beatrix von Storch, da Alemanha
Jair Bolsonaro ao lado da deputada Beatrix von Storch, da Alemanha. Crédito: Reprodução Instagram

Nesta segunda-feira (26), a parlamentar Beatrix von Storch, vice-presidente do partido AfD (Alternativ fur Deutschland), divulgou foto em que aparece com o presidente brasileiro e seu marido, durante visita que os dois fizeram no último dia 22 de julho ao Palácio do Planalto. Em sua conta no Instagram, Beatrix primeiramente agradeceu a recepção na Câmara dos Deputados pelo filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, em uma postagem que aparece ao lado do deputado brasileiro segurando uma bíblia.

A foto com o presidente da República só foi divulgada, pela própria Beatrix e não pelo Planalto, na segunda-feira. O encontro com Bolsonaro, que teria durado aproximadamente uma hora, não constava na agenda oficial do presidente. Foi a própria parlamentar alemã que fez um resumo da conversa e da visita: de acordo com ela, o seu partido quer "formar uma rede mais próxima e defender nossos valores cristãos conservadores em nível internacional".

A menção aos valores cristãos conservadores e a foto com a bíblia divulgada pela parlamentar causou bastante desconforto na classe política brasileira, mas não passou em branco para a comunidade judaica no país. O Museu do Holocausto em Curitiba manifestou-se contundentemente a respeito da visita e, em especial, do encontro com a deputada bolsonarista Bia Kicis: “É evidente a preocupação e a inquietude que esta aproximação entre tal figura parlamentar brasileira e a Beatrix von Storch representa para os esforços de construção de uma memória coletiva do Holocausto no Brasil e para nossa própria democracia”.

Paira um mal-estar enorme sobre a visita não oficial e o discurso ultraconservador, não só pelo discurso atual da parlamentar alemã, mas por suas reiteradas manifestações xenófobas, homofóbicas e preconceituosas na Alemanha. Mas o pior é a aproximação do governo brasileiro a uma figura diretamente ligada à história do nazismo alemão: Beatrix von Storch é neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças do governo de Adolf Hitler na Alemanha nazista. O avô de Beatrix chegou mesmo a ser julgado pelo Tribunal de Nuremberg, tendo sido condenado à prisão.

A parlamentar nunca se distanciou da sua história ligada ao extermínio de milhares de judeus em razão do mesmo ódio disseminado pelo governo de Hitler contra minorias vulneráveis, que acabaram sendo exterminadas em campos de concentração pelos nazistas.

Indaga-se, portanto, o que faz o governo brasileiro em meio a uma crise gravíssima de saúde pública, com quase 600.000 mortes, aproximar-se de uma figura política desse naipe? Seria a falta de outros aliados no mundo ocidental e a necessidade mesmo de se aproximar de figuras de caráter duvidoso e ideias reacionárias, contrariando até mesmo tentativas anteriores do próprio Bolsonaro de se aproximar de Israel?

O paradoxo que representa de um lado, a defesa do Estado de Israel, o recurso à Bíblia na foto de Eduardo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, a defesa de valores cristãos, e de outro lado a associação com uma figura como Beatrix von Storch, que em seu próprio país vem sendo muito criticada, que teve contas em redes sociais suspensas e seu partido, o AfD, tendo sido monitorado pelo Bundesamt fur Verfassungsschutz, órgão responsável, na Alemanha, por assegurar a ordem democrática livre e o respeito à constituição.

São muitas as críticas que devem ser feitas ao governo brasileiro atual e aos políticos da base aliada, mas o descaso com a vida humana é o ponto que causa maior repulsa. Não bastasse o desrespeito aos brasileiros mortos pela Covid-19 e seus familiares, agora temos também o apoio ao discurso de ódio que defende medidas como o extermínio de estrangeiros que tentarem atravessar as fronteiras alemãs, a proibição do casamento gay e a hegemonia da “raça ariana”. O governo brasileiro alia-se ao que há de mais abjeto na política mundial atual.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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