ASSINE
Autor(a) Convidado(a)

Projeto de leitura ajuda a perceber o humano atrás das grades

Quanto mais experiências tivermos, mais alimentamos nosso repertório de possibilidades de “ver” as coisas, reavaliando nossas preconcepções

Publicado em 03/11/2019 às 04h00
Atualizado em 03/11/2019 às 04h02
Projeto realiza rodas de debate literário com presos. Crédito: Shutterstock
Projeto realiza rodas de debate literário com presos. Crédito: Shutterstock

“Não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas como somos”. Essa frase, atribuída à escritora francesa Anaïs Nin, aparentemente pequena e simples, provoca uma verdadeira revolução na maneira com que produzimos e lidamos com o conhecimento. Ver as coisas como somos significa dizer que a realidade só nos é acessível a partir da nossa cultura, nossa história, nossas vivências e experiências.

Em outras palavras, a relação do sujeito com o objeto não é neutra. Quanto mais experiências tivermos, mais alimentamos nosso repertório de possibilidades de “ver” as coisas, reavaliando nossas preconcepções, e de compreender o mundo em que vivemos.

O projeto de extensão Ler Liberta, realizado pela Faculdade de Direito de Vitória (FDV) em parceria com a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), além de propiciar a leitura e produção de resenha crítica com fins de remição de pena, possibilita aos seus integrantes (alunos da instituição e internos da Penitenciária Estadual de Vila Velha) rodas de debate sobre a obra literária escolhida. Vale destacar que, em comemoração aos dois anos de projeto, será realizada uma roda de debate especial, com a presença da escritora Socorro Acioli, que recebeu o prêmio Jabuti em 2013. Uma de suas obras, “A Cabeça do Santo”, é trabalhada no projeto, por isso o convite à vinda da autora para enriquecer o debate, com os internos e os alunos da instituição.

E é justamente nesses momentos que a riqueza do projeto se verifica, especialmente para os alunos de Direito. Estar ao lado de alguém privado de liberdade, trocando ideias e percepções sobre um livro, é uma experiência transformadora. Conhecer o nome e ouvir as reflexões e histórias de quem povoa nosso imaginário, geralmente de forma marginalizada, e perceber o humano atrás das grades e dos artigos de lei, modifica a maneira de “ver” e de ser “visto”.

Por isso, formar pessoas conscientes está intimamente relacionado a proporcionar experiências que ampliem a capacidade de cada um de nós de ser, de ver e de estar no mundo. A extensão se coloca como parte fundamental do ensino superior, ao lado de ensino e pesquisa. E também por isso, a esperança de que os futuros profissionais da área jurídica, ao vivenciar projetos como esse, estejam sempre abertos ao conhecimento e à constante transformação de quem somos, não se acomodando ao que já é.

A autora é coordenadora pedagógica da FDV e do Projeto de Ler Liberta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.