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Entre 2013 e 2018: nenhum consenso definido

Em 2013, acordamos de uma primavera lulista e descobrimos que o sonho da conciliação era uma concessão oligárquica

Publicado em 15/06/2018 às 22h15
Passeata toma a Reta da Penha, em Vitória, em 20 de junho de 2013. Crédito: Gabriel Lordêllo/ Arquivo AG
Passeata toma a Reta da Penha, em Vitória, em 20 de junho de 2013. Crédito: Gabriel Lordêllo/ Arquivo AG

Marcos Ramos*

Cinco anos depois do maior levante popular do Brasil – refiro-me a Junho de 2013 - intelectuais, taxistas, jornalistas, barbeiros e youtubers estão longe de um consenso. E como em terras tupiniquins, já disse o ex-ministro Pedro Malan, até o passado é imprevisível, quanto mais nos afastamos das manifestações, mais elas se tornam polissêmicas e ambíguas.

Apesar dessas ambivalências, alinho-me àqueles que consideram o levante uma tomada de consciência trágica, isto é: acordamos de uma primavera lulista e descobrimos que o sonho da conciliação era uma concessão oligárquica. E essa não foi a primeira vez. Ocorre-me Euclides da Cunha e Lima Barreto, ambos denunciando a inviabilidade do diálogo e lutando por ele, Guimarães Rosa encenando uma conversa possível entre o letrado citadino e o sertanejo, o rico e o pobre, o interior e o exterior, e podemos ainda recuar até Goethe traduzindo a Surata 14, abraçando a poesia de Hafez, unindo o dentro e o fora, o oriente e o ocidente sob o signo da admiração, tentando criar uma gramática do diálogo.

Mas entendemos em junho de 2013 que não se negocia com uma classe embrutecida, não há diálogo com uma classe que cresceu assistindo Rambo, Jornal Nacional, Faustão, sonhou com uma bolsa Louis Vuitton, férias na Disney e uma foto na coluna social. Não há conciliação com uma classe que, forjada entre a revista Veja e os quadros do Romero Britto, não é inteligente nem sensível. A TFC (a saber: tradicional família capixaba, nas palavras de Carmélia M. de Souza) transformou frangalhos em bandeiras moralistas porque é semiletrada, ignorante e cafona.

Hoje, às 19 horas, na Câmera de Vereadores de Vitória, haverá uma audiência pública sobre o Projeto Escola Sem Partido. A TFC estará lá desfilando o charme da burguesia e pagando o mico, entre outras pérolas, de achincalhar 100 anos de pensamento marxista e meio século de pensamento sobre gênero, poder e sexualidade. Ela estará presente endossando o aviltamento dos professores e da educação em nome de uma liberdade que cala. Mas nós que ainda não nos exilamos (e tudo indica que não teremos condições financeiras e morais) e nos preocupamos com o também imprevisível futuro desse país, estaremos lá. Sugiro veementemente a participação no evento, mas sobretudo a leitura do Parecer Técnico da Comissão de Educação da Câmara. Obscurantismo se combate com informação. E como disse o poeta, que o Senhor tenha piedade dessa gente careta e covarde.

*O autor é professor e escritor

 

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